quinta-feira, 31 de dezembro de 2015

FELIZ ANO NOVO




Para as minhas amigas e amigos e todos aqueles que passam pelo "meu mar" eu desejo tudo de bom. Muita saúde, amor, harmonia, muita paz interior e exterior ... e também alguma sorte.


Maripa


terça-feira, 22 de dezembro de 2015

FELIZ NATAL




Natal de quem?

Mulheres atarefadas
Tratam do bacalhau,
do peru, das rabanadas.

- Não esqueças o colorau,
O azeite e o bolo-rei!

-  Está bem, eu sei!

- E as garrafas de vinho?

- Já vão a caminho!

-Oh mãe, estou pr'a ver
Que prendas vou ter.
Que prendas terei?

- Não sei, não sei...

Num qualquer lado, 
Esquecido,abandonado,
O Deus-Menino
Murmura baixinho:

- Então e Eu,
Toda a gente me esqueceu?

Senta-se a família
À volta da mesa.

Não há sinal da cruz,
Nem oração ou reza.

Tilintam copos e talheres.
Crianças, homens e mulheres
Em eufórico ambiente.
Lá fora tão frio,
Cá dentro tão quente!

Algures esquecido,
Ouve-se Jesus dorido:
- Então e Eu, 
Toda a gente Me esqueceu?

Rasgam-se embrulhos,
Admiram-se as prendas,
Aumentam os barulhos
com mais oferendas.
Amontoam-se sacos e papeis
Sem regras nem leis.

E Cristo Menino
a fazer beicinho:
-Então e Eu,
Toda a gente me esqueceu?

O sono está a chegar.
Tantos restos por mesa e chão!
Cada um vai transportar
Bem-estar no coração.
A noite vai terminar
E o Menino, quase a chorar:
- Então e Eu,
Toda a gente  Me esqueceu?
Foi a festa do Meu Natal
E, do princípio ao fim,
Quem se lembrou de Mim?
Não tive tecto nem afecto!

Em tudo, tudo, eu medito
E pergunto no fechar da luz:

Foi este o Natal de Jesus?!!!


João Coelho dos Santos 

in Lágrimas do Mar - 1996

Imagens: Google







BOAS FESTAS

Que a Luz do Menino Jesus, iluminando todos os lares, os encha de alegria.
Que o espírito de Natal traga aos nossos corações a fé inabalável dos que acreditam num tempo novo de Paz e Amor.





quarta-feira, 18 de novembro de 2015

SILÊNCIO




chego em silêncio
sinto o sol nas veias.

uma brisa lava o meu rosto
tenho sede de mar.

deito-me na areia
naquela frescura azul.

caminho em palavras
ligada ao mar e ao sol.

o dia é um vazio entre os espaços
fico indecisa e ardente.

sinto-me perdida entre os ventos
ouço vozes na penumbra desse vazio.

sei o que amo
e amo num abandono total.

sou alguém que espera
e que pergunta e responde.

uma esperança impossível,

a que caminha no repouso
do seu próprio silêncio.
o meu.


l.maltez

imagens Google




sábado, 7 de novembro de 2015

David Garrett


David Garrett


"Meditation from Thais"

  Jules Massenet







sexta-feira, 23 de outubro de 2015

OS OLHOS FALAM





Os olhos falam. 
Falam de histórias,
pequenas memórias longínquas,
lavadas pelas águas do rio
que se encaminha para a foz.
Os olhos brilham
quando o sol põe reflexos reluzentes
nas asas das libelinhas
enquanto voam rente ao rio.
Os salgueirais das margens
parecem mais verdes
quando baloiçam com trejeitos  de dança
ou adeuses infinitos.


Na tarde lenta
os olhos cansados, calam-se.
O sol declina
e o remoinho das emoções vem à tona. 

No silêncio sem norte,
um barco aguarda  a hora da luz derradeira.

Ao acordarem, as libelinhas,
entretanto adormecidas
nos braços macios dos salgueiros,
rumam a sul,
esgueirando-se por entre lágrimas de água. 



Maripa

Imagens: Google







sábado, 17 de outubro de 2015

HÁ MULHERES QUE TRAZEM O MAR NOS OLHOS




Há mulheres que trazem o mar nos olhos
Não pela cor
Mas pela vastidão da alma
E trazem a poesia nos dedos e nos sorrisos
Ficam para além do tempo
Como se a maré nunca as levasse
Da praia onde foram felizes.

Há mulheres que trazem o mar nos olhos
Pela grandeza da imensidão da alma
Pelo infinito  modo como abarcam as coisas 
e os Homens...
Há mulheres que são maré  em noites de tardes 
e calma. 


Sophia de Mello Breyner

Imagens Goggle










sábado, 10 de outubro de 2015

DISPO-ME DE SOMBRAS





Dispo-me de sombras para colher a cor
serena e quente das folhas de outono.

Descalço-me para não afastar o silêncio
que me enlaça com gestos de abandono.

Nos momentos de frágil transparência
envolvo-me em singelos sons musicais e
em sacros poemas a voar na paisagem
uma dança imanente.

Instantes incendidos de saudade
amena e indiferente
aos ressaltos da espiral do tempo
que por mim passa e
aos humores e rumores do vento
que me provoca e abraça.


Maripa

Imagens Google






sábado, 3 de outubro de 2015

   




segunda-feira, 28 de setembro de 2015

MUITAS VEZES EM SETEMBRO




Muitas vezes em setembro o sol abre o dia.
As horas espalham-se mornas sobre a pele
aquecem a memória supostamente fria...


Incendida e impetuosa  mostra as  palavras "luz  amor vida" gravadas  na caixa de música florida que foi nossa. Conta que a melodia que fazia dançar a bailarina como nuvem solta no ar , tinha deixado de se ouvir. Que  as palavras entristeceram e nunca mais foram felizes e assim , numa vertigem se desmoronaram. Que as letras, soltas e sós, sem fulgor nem sonho para as incentivar a unir-se, abraçaram e beijaram o rosto húmido da bailarina num adeus sem regresso. Conta que agora, dos olhos sem brilho, lágrimas lhe caem no colo como furtivas canções de outono...


Muitas vezes nas tardes de setembro adormeço
recostada na cadeira de baloiço e tenho sonhos.

Acordo, recordando a bailarina  a melodia
a caixa de música há tanto tempo partida...

                                            ...acordo e estremeço.



Maripa

Imagens Google







sexta-feira, 25 de setembro de 2015

UM SUSSURRO







Um sussurro
ou o canto longínquo 
de um pássaro triste
talvez uma palavra
lançada ao acaso soprada ao vento
ou a espuma do mar
tomando conta do meu pensamento

uma criança perdida estremece de frio dentro de mim 
sozinha ao relento




Ruth Ministro








quarta-feira, 16 de setembro de 2015

COM ESTA SUAVE ARAGEM




Com esta suave aragem
com barcos em tons de azul
quase toco as nuvens com a mão.

Neste momento suspenso
sem segundos nem minutos
há imagens que tocam a ilusão.

Medito sem grandes pressas
 - tenho que me reinventar- 
e dada
a falta de ondas em agitação
navego até aos mares do sul,
levando na bagagem pensares
com tons rosados a madrugar.

Alindo-me com a blusa de flores
que me deste no dia dos meus anos 
e com tatuagens em tons pastel.

Para trás 
muitas coisas vou deixar...
[o velho vestido lilás
                         vou atirá-lo ao mar!]

Revestida com outra pele,
com esta suave aragem
com barcos em tons de azul,
quase invento a perfeição...

Maripa

Imagens Google







sexta-feira, 11 de setembro de 2015

DAI-ME UM DIA BRANCO





Dai-me um dia branco, um mar de beladona
Um movimento
Inteiro, unido, adormecido
Como um só momento.

Eu quero caminhar como quem dorme
Entre países sem nome que flutuam.

Imagens tão mudas
Que ao olhá-las me pareça
Que fechei os olhos.

Um dia em que se possa não saber.


Sophia de Mello Breyner

Imagens Google








sábado, 22 de agosto de 2015

NÃO EXISTE CHAVE PARA O TEMPO




Não existe chave para o tempo
nem para o vértice
da vida.

Consciente
 de que tudo tem um fim
espero paciente
o desabar dos pilares que sustentaram
a essência do que fui e ainda sou.

O sopro pleno
que fazia fluir em mim a energia vital
e me conduzia a céus sem limites
e à eternidade das paisagens
desbotou a cor da memória
e da vontade antiga
 enquanto o querer
de dentro
voou.


Maripa

Imagens Google





terça-feira, 4 de agosto de 2015

INVENÇÃO




Se é por mim que traço
o teu retrato,
a sobrancelha, a boca
o pensamento

É por ti, também
que já o guardo
e o demoro naquilo que eu
invento

A mão descida ali
o ombro inclinado

Os dedos descuidados
o gesto de que lembro

Se é por mim que faço
o teu retrato
dizendo de ti mais do que 
entendo

É por ti que o testemunho
e faço:
o nariz, a face dissimulando os dentes

Deixo para o fim os lábios
os olhos deste mar
com a cor do luar a meio de Agosto

Se desvendo de ti o sol-posto
é porque vejo o coração
amar 
e nada mais me dá tamanho gosto

Maria Teresa Horta

Imagens GOOGLE



terça-feira, 28 de julho de 2015

APRENDER




Aprender
a religar as palavras
escritas no livro 
da vida
ver
a formosura de um búzio
luz de madrepérola
viva
observar
o marulhar das marés
o ir e voltar
 da água
conceber
como enorme pano de fundo
o horizonte azul
profundo
sentir
o espírito a alagar-se de mar
de energias indecifráveis
  límpidas     sagradas
puras
ajoelhar
mãos postas erguidas numa prece
a orar penitente e simples
hossana nas alturas.


Maripa

Imagens: Irina Todorova






segunda-feira, 20 de julho de 2015

ANTES QUE


Robin Mead


Preciso de adormecer antes
que a noite fuja
e os pássaros azuis levantem voo
do ninho dos poemas.

Preciso  vivenciar antes
que o jardim interior definhe
_em tempo de incertezas_
o abrir da flor das alfazemas.

Preciso suavizar-me antes que
as borboletas deixem os casulos.

E exorcizar todos os dilemas.


Maripa








segunda-feira, 13 de julho de 2015

MENSAGEM A UM DESCONHECIDO..






Teu bom pensamento longínquo me emociona.
Tu, que apenas me leste,
acreditaste em mim e me entendeste profundamente.

Isso me consola dos que me viram,
a quem mostrei toda a minha alma,
e continuaram ignorantes de tudo o que sou,
como se nunca me tivessem encontrado.



Cecília Meireles in POESIA COMPLETA







sexta-feira, 3 de julho de 2015

QUANDO A MANHÃ NASCER






Para caminhar para além do horizonte
não posso esquecer nem abandonar
nada do que me enterneceu e deu força.

Os amores   as marés   as flores    os sóis   os luares
todos os silêncios e falares que peregrinaram comigo.

Se houver degraus começarei, já hoje,
a subi-los um a um até alcançar a nuvem
onde possa repousar da íngreme escalada.
No azul-negro, estrelas lanternas, vão luzir,
e o meu dormitar será um dormir a sono solto
impregnado de aromas a desabrochar na lonjura.

E quando a madrugada se erguer nas asas do sol,
na hora do lado de cá do vento, no instante  
em que a medida do tempo me colheu,
o firmamento será um lago e o mar uma pintura.

E quando a manhã nascer
o horizonte será essa manhã
                                                   que sonhei para ser eu.



Maripa

Pinturas: Yuliya Glavnaya








segunda-feira, 22 de junho de 2015

TUDO ERA MAIS PRÓXIMO






Lembro sinais
do tempo em que
tudo era mais próximo
tudo era mais pequeno.

Era
tudo aqui junto a mim
encostado no meu colo
ligado às minhas mãos.

Colhia as maçãs
dos braços das macieiras
ao mesmo tempo que
perto do chão os morangos
exibiam o sabor de cada dia.

Era afortunada e não sabia.
Tudo era mais próximo
tudo era mais pequeno.

Não sabia do longe que existia
... do perto guardava em mim
a cor      a luz      a serenidade 
duma esplendorosa harmonia.


Maripa

Pinturas: Cheri Wollemberg







terça-feira, 16 de junho de 2015

UMA PEQUENINA LUZ





Uma pequenina luz bruxuleante
não na distância brilhando no extremo da estrada
aqui no meio de nós e a multidão em volta
une toute petite lumière
just a little light
una picolla... em todas as línguas do mundo
uma pequena luz bruxuleante
brilhando incerta mas brilhando
aqui no meio de nós
entre o bafo quente da multidão
a ventania dos cerros e a brisa dos mares
e o sopro azedo dos que a não vêem
só a adivinham e raivosamente assopram.
Uma pequena luz
que vacila exacta
que bruxuleia firme
que não ilumina apenas brilha.
Chamaram-lhe voz ouviram-na e é muda.
Muda como a exactidão como a firmeza
como a justiça
brilhando indefectível.
Silenciosa não crepita
não consome não custa dinheiro.
Não aquece também os que de frio se juntam.
Não ilumina também os rostos que se curvam.
Apenas brilha bruxuleia ondeia
indefectível próxima dourada.
Tudo é incerto ou falso ou violento: brilha.
Tudo é terror vaidade orgulho teimosia: brilha.
Tudo é pensamento realidade sensação saber: brilha.
Tudo é treva ou claridade contra a mesma treva: brilha.
Desde sempre ou desde nunca para sempre ou não:
brilha.
Uma pequenina luz bruxuleante e muda
como a exactidão como a firmeza
como a justiça.
Apenas como elas.
Mas brilha.
Não na distância. Aqui
no meio de nós.
Brilha.



Jorge de Sena





terça-feira, 9 de junho de 2015

PALAVRAS ABERTAS EM FLOR





Naquele livro,
em cada página um rio de palavras
abertas em flor
deslizava para o mar.
Nuvens ondeavam no céu tingido 
de azul-sossego
enquanto
o silêncio e o perfume das letras,
amarradas uma a uma
entre margens,
precisavam de asas
para serem livres como  borboletas.

Entre as folhas repousavam
um coração de papel, um trevo da sorte,
uma fita de seda, uma rosa ressequida.
Migalhas de tempos de mel.

Agora
na fluidez dos tempos líquidos e efémeros,
desorientados,  medos brancos,  medos negros
deixam voar  palavras abertas em flor...
É um agora sem brilho
onde medos  negros  sobressaltam corações
esgotados por  ventos a soprar sem  norte.



Maripa

Imagens: Google