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quinta-feira, 21 de maio de 2020

UMA CIDADE




Uma Cidade

Uma cidade pode ser
apenas um rio, uma torre, uma rua
com varandas de sal e gerânios
de espuma. Pode
ser um cacho
de uvas numa garrafa, uma bandeira
azul e branca, um cavalo
de crinas de algodão, esporas
de água e flancos
de granito.
                      Uma cidade
pode ser o nome
dum país, dum cais, um porto, um barco
de andorinhas e gaivotas
ancoradas
na areia. E pode
ser
um arco-íris à janela, um manjerico
de sol, um beijo
de magnólias
ao crepúsculo, um balão
aceso

numa noite
de junho.

Uma cidade pode ser
um coração,
um punho.

Albano Martins, in "Castália e Outros Poemas"






Imagens: Pinterest


domingo, 29 de setembro de 2019

DIÁLOGO



Aguarela de ALLEN  EGAN


Diálogo

Levarás
pela mão
o menino
até ao rio. Dir-lhe-ás
que a água é cega
e surda. Muda,
não. Que o digam
os peixes, que em silêncio
com ela sustentam
seu diálogo
líquido, de líquidas
sílabas
de submersas
vogais.



Albano Martins, in "Castália e Outros Poemas"



Aguarela de autor desconhecido

segunda-feira, 12 de agosto de 2019

PINTURA


Jacinto em flor [Pinterest]


Pintura

Onde se lê espiga
leia-se narciso.
Ou leia-se jacinto.
Ou leia-se outra flor.
Que pode ser a mesma.

As flores
são formas
de que a pintura se serve
para disfarçar
a natureza. Por isso
é que
no perfil 
duma flor
está também pintado
o seu perfume.

Albano Martins




Pintura de Anna Homchik


segunda-feira, 22 de julho de 2019

FLOR DA PAIXÃO






Flor da paixão

Sei agora
que a paixão
é azul e coroada
como o sangue e as cabeças
das rainhas. Que tem
nome de flor
e é ímpar. Porque, 
se não o fosse,
não seria paixão.

Albano Martins







Imagens da net

quinta-feira, 4 de julho de 2019

DORMIR UM POUCO...



Dormir um pouco - um minuto,
um século. Acordar
na crista duma onda, ser
o lastro de espuma
que há no sono das algas. Ou
ser apenas,
a maré, que sempre 
volta
para dizer: eu não morri, eu sou
a borboleta
do vento, a flor
incandescente destas águas.

                                                    Albano Martins

                                                              

                     
                                                                       

                                                                                                      Imagens:Pinterest

domingo, 23 de novembro de 2014

SE O TEMPO...




Se o tempo
fosse
uma flor, o seu 
perfume
seria 
esta luz
escorrendo
pelas escarpas
do dia.


Albano Martins in Antologia Poética

Imagens: Google



quinta-feira, 25 de setembro de 2014

UM DIA VOLTAREI







Um dia voltarei à morada das papoilas
colher os versos vermelhos
que semeei na seara.

Um dia o vento estará maduro.


Albano Martins

Imagens: Dima Dmitriev







sábado, 2 de março de 2013

SILÊNCIO INTACTO








Silêncio intacto

Sobe até ao cimo da manhã.
É lá que deves esperar-me,
grande intervalo de silêncio
musicado e fresco
até que eu me liberte
do terror das palavras sedentárias
e aprenda, irmão mais novo dos insectos,
a linguagem perfumada das flores.

Albano Martins

Imagens: Elena Dudina







quinta-feira, 3 de janeiro de 2013

DEIXA QUE OS MEUS OLHOS






Deixa que os meus olhos se fechem
E confiem um minuto nos teus...
Olha por mim, protege o meu sonho
Vigia o meu descanso e afasta-me de todas as mágoas
Deixa que os meus olhos durmam nos teus...



Albano Martins

Imagens: Google





sábado, 8 de dezembro de 2012

E ME DISSESTE: VEM.





E me disseste: vem.

E me disseste: vem. E havia
alguns despojos sobre a areia, algumas
ressentidas grinaldas
no limiar das têmporas. Havia
alguns gestos suspensos, um cofre
de esmeraldas vermelhas, um torpor
nos membros retardados. E havia
um colar para as mãos, uma colina
para os lábios e uma flor
intacta perfumando
o silêncio, à beira
de indizíveis planícies.


Albano Martins

Imagens: Mark Mawson






terça-feira, 23 de outubro de 2012

HÁ EM TEUS OLHOS






Há em teus olhos, dados ao momento,
uma tristeza de água reprimida,
que é como o pressentimento
duma próxima despedida.
Tristeza que faz lembrar
dias perdidos de outono
com luz pálida a incidir
nas folhas mortas de sono.
Deixa que a esperança os molhe,
os inunde de alegria.
Cada noite passa e colhe
o gosto dum novo dia.

Albano Martins

Imagens: Audrey Kawasaki



  

quarta-feira, 25 de julho de 2012

PEQUENAS COISAS


Imagem: Bao Zhen




Falar do trigo e não dizer
o joio. Percorrer
em voo raso os campos
sem pousar
os pés no chão. Abrir
um fruto e sentir
no ar o cheiro
a alfazema. Pequenas coisas,
dirás, que nada
significam perante
esta outra, maior: dizer
o indizível. Ou esta:
entrar sem bússola
na floresta e não perder
o rumo.Ou essa outra, maior
que todas e cujo
nome por precaução
omites. Que é preciso,
às vezes,
não acordar o silêncio.


Albano Martins 



Imagem: Kevin Sloan

  

terça-feira, 12 de junho de 2012

AINDA TE FALTA


Imagem Marjo&Beau
 


Ainda te falta
dizer isto: que nem tudo
o que veio
chegou por acaso. Que há
flores que de ti 
dependem, que foste
tu que deixaste
algumas lâmpadas
acesas. Que há
na brancura
do papel alguns
sinais de tinta
indecifráveis. E
que esse
é apenas
um dos capítulos do livro
em que tudo
se lê e nada
e nada está escrito.

Albano Martins


Imagem Google

sábado, 14 de abril de 2012

UM DIA VOLTAREI À MORADA DAS PAPOILAS



Um dia voltarei à morada das papoilas
colher os versos vermelhos
que semeei na seara.

Um dia o vento estará maduro.


Albano Martins

Imagem: Philippe Sainte-Laudy

segunda-feira, 20 de fevereiro de 2012

O NOME DA AUSÊNCIA





O sótão: era ali
que o mundo começava. Ainda
não sabias, então,
quantas letras te seriam
necessárias para soletrar
o alfabeto dos dias, para encher
a tua caixa 
de música, a tua concha
de areia. E ainda
o não sabes hoje. Com cinza
nada se escreve a não ser 
as vogais do silêncio. E este
é o nome que se dá à ausência,
quando a noite e a poeira
dos astros pousam
sobre a ranhura dos olhos.


Albano Martins

Imagem: Irina Todorova

sexta-feira, 3 de fevereiro de 2012

AINDA TE FALTA DIZER ISTO




Ainda te falta
dizer isto: que nem tudo
o que veio
chegou por acaso. Que há
flores que de ti
dependem, que foste
tu que deixaste
algumas lâmpadas
acesas. Que há
na brancura
do papel alguns
sinais de tinta
indecifráveis. E
que esse
é apenas
um dos capítulos do livro
em que tudo
se lê e nada
está escrito.



Albano Martins

Imagens: Google




segunda-feira, 2 de janeiro de 2012

RELÓGIO SEM PONTEIROS





Quando agora te debruças sobre a água do tanque, vês projectado, lá no fundo, um relógio sem ponteiros. Percebes, então, que a ferrugem é também uma qualidade e um atributo da água e não apenas de alguns metais a que chamamos vis. E percebes ainda que já não são necessários os relógios. Tu já não tens idade, nem o tempo, que partilha do halo e da fluidez da água e é, às vezes, como ela, tão inodoro e insípido, se deixa prender, mesmo num vaso de cristal. E não podes, assim, medir-lhe a respiração. A sua duração, se preferes. Se alguma ainda subsiste, é a que é regulada pelos ponteiros do seu próprio corpo.


Albano Martins

Imagem: Google