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quinta-feira, 20 de fevereiro de 2020

COM AS GAIVOTAS

Foto:  Alex Athanasiadis


Com as gaivotas



Contente de me dar com as gaivotas
bebo o Outono e a tarde arrefecida.

Perfeito o céu, perfeito o mar, e este amor
por mais que digam é perfeito como a vida.


Tenho tristezas como toda a gente.
E como toda a gente quero alegria.

Mas hoje sou de um céu que tem gaivotas,
leve o diabo esta morte dia a dia.

Eugénio de Andrade





Tenho tantas saudades do meu mar...

quarta-feira, 4 de dezembro de 2019

PEQUENA ELEGIA CHAMADA DOMINGO



Pequena Elegia Chamada Domingo


O domingo era uma coisa pequena.
Uma coisa tão pequena
que cabia inteirinha nos teus olhos.
Nas tuas mãos
estavam os montes e os rios
e as nuvens.
Mas as rosas,
as rosas estavam na tua boca.

Hoje os montes e os rios
e as nuvens
não vêm nas tuas mãos.
(Se ao menos elas viessem
sem montes e sem nuvens
e sem rios...)
O domingo está apenas nos meus olhos
e é grande.
Os montes estão distantes e ocultam
os rios e as nuvens
e as rosas.


                  
Eugénio de Andrade



Imagens: Pinterest


quarta-feira, 14 de setembro de 2016

TU ÉS A ESPERANÇA




Tu és a esperança, a madrugada.
Nasceste nas tardes de setembro,
quando a luz é perfeita e mais doirada,
e há uma fonte crescendo no silêncio
da boca mais sombria e mais fechada.

Para ti criei palavras sem sentido,
inventei brumas, lagos densos,
e deixei no ar braços suspensos
ao encontro da luz que anda contigo.

Tu és a esperança onde deponho
meus versos que não podem ser mais nada.
Esperança minha, onde os meus olhos bebem,
fundo, como quem bebe a madrugada.


Eugénio de Andrade

Imagens: Victoriia Tkachenco






sexta-feira, 5 de junho de 2015

CANÇÃO BREVE






Tudo me prende à terra onde me dei:
o rio subitamente adolescente,
a luz tropeçando nas esquinas,
as areias onde ardi impaciente.

Tudo me prende do mesmo triste amor
que há em saber que a vida pouco dura
e nela ponho a esperança e o calor
de uns dedos com um resto de ternura.

Dizem que há outros céus e outras luas
e outros olhos densos de alegria,
mas eu sou destas casas, destas ruas,
deste amor a escorrer melancolia.



Eugénio de Andrade

Imagens: Francine  van Hove





quarta-feira, 8 de janeiro de 2014

AVES DE SILÊNCIO E SOLIDÃO






Somos folhas breves onde dormem
aves de silêncio e solidão.
Somos só folhas ou o seu rumor.
Inseguros, incapazes de ser flor,
até a brisa nos perturba e faz tremer.
Por isso a cada gesto que fazemos
cada ave se transforma noutro ser.



Eugénio de Andrade

Imagens: Google







sábado, 5 de outubro de 2013

SOMOS FOLHAS BREVES






Somos folhas breves onde dormem
aves de silêncio e solidão.

Somos só folhas ou o seu rumor.
Inseguros, incapazes de ser flor,
até a brisa nos perturba e faz tremer.

Por isso a cada gesto que fazemos
cada ave se transforma noutro ser.



Eugénio de Andrade

Imagens: Google







terça-feira, 2 de julho de 2013

A ROSA E O MAR





A rosa e o mar

Eu gostaria ainda de falar
da rosa brava e do mar.
A rosa é tão delicada,
o mar tão impetuoso,
que não se como os juntar
e convidar para um chá
na casa breve do poema.

O melhor é não falar:
sorrir-lhes só da janela.



Eugénio de Andrade [do seu livro Infantil " Aquela nuvem e outras"]


Imagens: Google








segunda-feira, 8 de abril de 2013

CONTIGO




Contigo

Acordo na manhã de oiro
entre o teu rosto e o mar.

As mãos afagam a luz,
prolongam o dia breve.

Entre o teu rosto e o mar
ninguém deseja ser neve.

Ninguém deseja o veneno
da noite despovoada.

Acorda-me a tua voz,
nupcial, branca, delgada.

Eugénio de Andrade

Imagens: Google






domingo, 6 de maio de 2012

POEMA À MÃE




No mais fundo de ti
Eu sei que te traí, mãe.

Tudo porque já não sou 
O menino adormecido
No fundo dos teus olhos.

Tudo porque ignoras
Que há leitos onde o frio não se demora
E noites rumorosas de águas matinais.

Por isso, às vezes, as palavras que te digo,
São duras, mãe,
E o nosso amor é infeliz.

Tudo porque perdi as rosas brancas
Que apertava junto ao coração
no retrato da moldura.

Se soubesses como amo ainda as rosas,
Talvez não enchesses as horas de pesadelos.

Mas tu esqueceste muita coisa;
Esqueceste que as minhas pernas cresceram,
Que todo o meu corpo cresceu,
E até o meu coração
Ficou enorme, mãe!

Olha - queres ouvir-me -
Às vezes ainda sou o menino
Que adormeceu nos teus olhos;

Ainda aperto contra o coração
Rosas tão brancas
Como as que tens na moldura;

Ainda oiço a tua voz:
Era uma vez uma princesa
No meio do laranjal...

Mas - tu sabes - a noite é enorme,
E todo o meu corpo cresceu.
Eu saí da moldura,
Dei às aves os meus olhos a beber.

Não me esqueci de nada, mãe.
Guardo a tua voz dentro de mim.
E deixo as rosas.
Boa noite. Eu vou com as aves.



Eugénio de Andrade




sexta-feira, 2 de março de 2012

PERTO DO MAR





O corpo sabe.
O corpo não esqueceu ainda
a direcção do sol:
fará a casa perto do mar,
fiel ao quase adolescente
coração da água.
As mãos acesas - altas, altas.




Eugénio de Andrade

Imagem: Google

domingo, 22 de janeiro de 2012

UM SIMPLES PENSAMENTO



É a música, esse romper do escuro.
Vem de longe, certamente doutros dias,
doutros lugares. Talvez tenha sido
a semente de um choupo, o riso
de uma criança, o pulo de um pardal.
Qualquer coisa em que ninguém
sequer reparou, que deixou de ser
para se tornar melodia. Trazida, 
por um vento pequeno, por um sopro,
ou pouco mais, para tua alegria.
E agora demora-se, este sol materno,
fica contigo o resto dos dias.
Como o lume, ao chegar o inverno.


Eugénio de Andrade

Imagem: Google

sexta-feira, 18 de novembro de 2011

AS POUCAS PALAVRAS



Foi um dia, e outro dia, e outro ainda.
Só isso: o céu azul, a sombra lisa,
o livro aberto.
E algumas palavras. Poucas,
ditas como por acaso.

Eram contudo palavras de amor.
Não propriamente ditas,
antes adivinhadas. Ou pressentidas.
Como folhas verdes de passagem.
Um verde, digamos, brilhante,
de laranjeiras.

Foi como se de repente chovesse:
as folhas, quero dizer, as palavras
brilharam. Não que fossem ditas,
mas eram de amor, embora só adivinhadas.
Por isso brilhavam. Como folhas
molhadas.

Eugénio de Andrade

Imagem: Wieslaw Syposz

quinta-feira, 10 de novembro de 2011

ATÉ AMANHÃ



Sei agora como nasceu a alegria,
como nasce o vento entre barcos de papel,
como nasce a água ou o amor
quando a juventude não é uma lágrima.

É primeiro só um rumor de espuma
à roda do corpo que desperta,
sílaba espessa, beijo acumulado,
amanhecer de pássaros no sangue.

É subitamente um grito,
um grito apertado nos dentes,
galope de cavalos num horizonte
onde o mar é diurno e sem palavras.

Falei de tudo quanto amei.
De coisas que te dou
para que tu as ames comigo:
a juventude, o vento e as areias.


Eugénio de Andrade

Imagem: Google

sábado, 10 de setembro de 2011

SEM TI





E de súbito desaba o silêncio.
É um silêncio sem ti,
sem álamos,
sem luas.


Só nas minhas mãos
ouço a música das tuas.


Eugénio de Andrade

Imagem Google

domingo, 26 de junho de 2011

DESPERTAR


É um pássaro, uma rosa,
é o mar que me acorda?
Pássaro , rosa ou mar,
tudo é ardor, tudo é amor.
Acordar é ser rosa na rosa
canto na ave, água no mar.

Eugénio de Andrade

Imagem da internet

domingo, 24 de abril de 2011

TAMBÉM O DESERTO VEM



Também o deserto vem
do mar. Não sei em que navio,
mas foi desses lugares
que chegaram ao meu jardim
as palmeiras.
Com o sol das areias
em cada folha,
na coroa o sopro
ainda húmido das estrelas.


Eugénio de Andrade


imagem da internet

quinta-feira, 7 de janeiro de 2010

OS LIVROS



Os livros. A sua cálida,
terna, serena pele. Amorosa
companhia. Dispostos sempre
a partilhar o sol
das suas águas. Tão dóceis,
tão calados, tão leais.
Tão luminosos na sua
branca e vegetal e cerrada
melancolia. Amados
com nenhuns outros companheiros
da alma. Tão musicais
no fluvial e transbordante
ardor de cada dia.



Eugénio de Andrade

Imagem: Andre M. Barros



sábado, 19 de setembro de 2009

PEQUENA ELEGIA CHAMADA DOMINGO

O domingo era uma coisa pequena.
Uma coisa tão pequena
que cabia inteirinha nos teus olhos.
Nas tuas mãos estavam os montes e os rios
e as nuvens.
Mas as rosas,
as rosas estavam na tua boca.

Hoje os montes e os rios
e as nuvens
não vêm nas tuas mãos.
(Se ao menos elas viessem
sem montes e sem nuvens
e sem rios...)
O domingo está apenas nos meus olhos
e é grande.
Os montes estão distantes e ocultam
os rios e as nuvens
e as rosas.

Eugénio de Andrade


domingo, 14 de junho de 2009

CRISTALIZAÇÕES

1.
Com palavras amo.

2.
Inclina-te como a rosa
só quando o vento passe.

3.
Despe-te
como o orvalho
na concha da manhã.

4.
Ama
como o rio sobe os últimos degraus
ao encontro do seu leito.

5.
Como podemos florir
ao peso de tanta luz?

6.
Estou de passagem: ama o efémero.

7.
Onde espero morrer
será amanhã ainda?


Eugénio de Andrade


Espero, amanhã,recomeçar as visitas aos meus amigos queridos. Bem-hajam pela vossa dedicação e carinho. Um abraço enorme da Maripa.

quarta-feira, 22 de abril de 2009

A UMA CEREJEIRA EM FLOR


Acordar, ser na manhã de abril
a brancura desta cerejeira;
arder das folhas à raíz,
dar versos ou florir desta maneira.

Abrir os braços, acolher nos ramos
o vento, a luz ou o que quer que seja;
sentir o tempo, fibra a fibra,
a tecer o coração de uma cereja.


Eugénio de Andrade

Imagem da Net