terça-feira, 4 de novembro de 2014

DIA 34





Sagrado é o coração da árvore, a vigília da pedra, a gravidez da amêndoa, o pulsar do rio, a timidez do bosque, o trabalho discreto da semente. Sagrado é o lenho, e a erva, o cavalo, o boi e o cão, sagrado é o sol, sagrada a casa, a noite, o dia, o círculo e a pirâmide. E sagrado é o vento e a vontade, e o branco e a esperança. Sagrados são os montes e os filhos e os sentidos e os pássaros e os humildes. É sagrada a dança e a cabeça e o azul e a primavera. Sagrados são os cornos do inverno. E as flores amarelas. Sagrado é o desejo que humedece o corpo. Sagrada é a distância. E a memória. Sagrados são os lábios, o cérebro e as mãos. E os astros, e a espuma e a teimosia dos metais. E é sagrada a arte e o amor e a claridade. E o centro do homem. E a voz da terra. E o equilíbrio dos instintos. E o mistério dos mortos e dos vivos. E as razões do amor. Sagrada é a forma e a beleza e a luz e o fogo dos teus olhos.


Joaquim Pessoa, in Ano Comum 

Imagens: GOOGLE





domingo, 2 de novembro de 2014

RETRATO DE AMIGO




Por ti falo. E ninguém sabe. Mas eu digo
meu irmão     minha amêndoa     meu amigo
meu tropel de ternura     minha casa
meu jardim de carência    minha asa.
Por ti morro e ninguém pensa. Mas eu sigo
um caminho de nardos empestados
uma intensa e terrífica ternura
rodeado de cardos por muitíssimos lados.

Meu perfume de tudo     minha essência
meu lume     minha lava     meu labéu
como é possível não chegar ao cume
de tão lavado céu?


Ary dos Santos

Imagens: GOOGLE





quinta-feira, 30 de outubro de 2014

ESPERA






Deito-me tarde
Espero por uma espécie de silêncio
Que nunca chega cedo
Espero a atenção a concentração da hora tardia
Ardente e nua
É então que os espelhos acendem o seu segundo brilho
É então que se vê o desenho do vazio
É então que se vê subitamente
A nossa própria mão poisada sobre a mesa

É então que se vê passar o silêncio 

Navegação antiquíssima e solene



Sophia de Mello Breyner Andresen,  in GEOGRAFIA

Imagens: Amanda Cass








segunda-feira, 27 de outubro de 2014

LILLA PETE

 

                          LILLA PETE                                  

 Bach Es-dur Sonata Flute


" Não ouças o rouxinol. Nem a cotovia. 
É dentro de ti que toda a música é ave."



Eugénio de Andrade in Branco no Branco






sábado, 25 de outubro de 2014

BREVE CANÇÃO DO VENTO OESTE





Ele há-de vir o vento oeste
ele há-de vir e há-de levar
as vãs palavras que escreveste.
Ele há-de vir com seu presságio
e os címbalos que já trazem o som do inverno
ele há-de vir o vento oeste e há-de apagar
o verão que parecia ser eterno.

Ele há-de vir com seu adágio
suas orquestras em convés que vão ao fundo
ele há-de vir e há-de apagar
a escrita  a jura  as ilusões do mundo.

Em cada verso há um naufrágio
não sei de poema que não seja mar.


Manuel Alegre

Imagens: Adam Pekalski






segunda-feira, 20 de outubro de 2014

OS POEMAS SÃO PÁSSAROS


Raymond Mottl




Os poemas são pássaros que chegam
não se sabe de onde e pousam
no livro que lês.
Quando fechas o livro, eles alçam voo
como de um alçapão.
Eles não têm pouso
nem porto
alimentam-se um instante em cada par de mãos
e partem.
E, olhas, então, essas tuas mãos vazias,
no maravilhado espanto de saberes
que o alimento deles já estava em ti...



Mario Quintana





Imagem: GOOGLE


sexta-feira, 17 de outubro de 2014

LÁ...


Saleem  Khawar




Leva-me os olhos, gaivota,
e deixa-os cair lá longe naquela ilha sem rota...

Lá...
onde os cravos e os jasmins
nunca se repetem nos jardins...

Lá...
onde a mesma aranha tece a mesma teia
na mesma escuridão das mesmas casas...

Lá...
onde toda a noite canta uma sereia
... e a lua tem asas...
Lá...


José gomes Ferreira



terça-feira, 14 de outubro de 2014

ASTROS




Não vale a pena procurar astros morrentes, que para tal nos basta o espelho de água, nas voltas do tempo vário.
Grandiosa a corrida dos peixes rio acima, na sua estação de esperanças,
na ignorância da força da corrente.
Maior é a força que carregam.
Correm as folhas do Outono, monte abaixo, ao sabor da levada, arrefecida a seiva, cegas pelas esperas.
Entre o peixe e a folha um astro se levanta.
Nascentes, inaugurais, brotam  palavras.



Licínia Quitério

Imagens: GOOGLE






segunda-feira, 13 de outubro de 2014

TARDES INVENTADAS




As tardes inventei-as.

Fulgurantes umas,
sonolentas outras,
quentes ou arrepiantes
e todas
geradoras de instantes
impossíveis...

Atiro um braço ao ar
e quero que ele prenda um estrela,
um cometa, o floco de renda
de mil cassiopeias...

É dia e há luar...

As tardes inventei-as.



Saúl Dias

Imagens: GOOGLE




sexta-feira, 10 de outubro de 2014

CONFISSÃO





De um e outro lado do que sou, 
da luz e da obscuridade,
do ouro e do pó,
ouço pedirem-me que escolha;
e deixe para trás a inquietação,
a dor,
um peso de não sei que ansiedade.

Mas levo comigo tudo
o que recuso. Sinto
colar-se-me às costas
um resto de noite;
e mão sei voltar-me
para a frente onde 
amanhece.


Nuno Júdice

Imagens: Nathalie Picoulet







domingo, 5 de outubro de 2014

VIVER...





Viver uma vida desapaixonada e culta, ao relento das ideias, lendo, sonhando e pensando em escrever, uma vida suficientemente lenta para estar sempre à beira do tédio, bastante meditada para se nunca encontrar  nele. Viver essa vida longe das emoções e dos pensamentos , só no pensamento das emoções e na emoção dos pensamentos. Estagnar ao sol, douradamente, como um lago obscuro rodeado de flores. Ter , na sombra, aquela fidalguia da individualidade que consiste em não insistir para nada com a vida. Ser no volteio dos mundos como uma poeira de flores, que um vento incógnito ergue pelo ar da tarde, e o torpor do anoitecer deixa baixar no lugar de acaso, indistinta entre coisas maiores. Ser isto com um conhecimento seguro, nem alegre nem triste, reconhecido ao sol do seu brilho e às estrelas do seu afastamento.
Não ser mais, não ter mais, não querer mais... A música do faminto, a canção do cego, a relíquia do viandante incógnito, as passadas no deserto do camelo vazio sem destino...


Fernando Pessoa/Bernardo Soares  in Livro do Desassossego

Imagens: Google






quinta-feira, 2 de outubro de 2014

O TEMPO É OUTRO RIO


Sophia  Michailidou


Quase sempre o tempo é outro rio,
uma música larga e possessiva, uma forma
de avidez lunar, de apetite cósmico
que não nos poupa nem nos ama.
Prefigura este rio todo o assombro
que o século e o instante
semeiam na passagem, não passando.

A ruga é o leito de outra água,
da que rasga e avassala, da que arqueia
o dorso do que escreve e do que espera.
Um relógio de quadrante guarda-se
para a contabilidade de outras horas
que não as do sono, que não as do pasmo.

Demora-se o rosto a ver-se envelhecer,
reverbero de lua mansa na areia
onde o corpo ancora e se faz casa.

O tempo é outro rio que passa largo,
ao largo da boca que o chama e se consome.


José Jorge Letria



Brita Seifert

terça-feira, 30 de setembro de 2014

IDADES






No início,
eu queria um instante.
A flor.

Depois,
nem a eternidade me bastava.
E desejava a vertigem
do incêndio partilhado.
O fruto.

Agora,
quero apenas
o que havia antes de haver vida.
A semente.


Mia Couto

Imagens: GOOGLE





sábado, 27 de setembro de 2014





"A noite é mais pura do que o dia,é melhor para pensar, amar e sonhar. À noite tudo é mais intenso, mais verdadeiro. O eco das palavras que foram ditas durante o dia assume um significado novo e mais profundo."


Elie Wiesel

Imagens GOOGLE





quinta-feira, 25 de setembro de 2014

UM DIA VOLTAREI







Um dia voltarei à morada das papoilas
colher os versos vermelhos
que semeei na seara.

Um dia o vento estará maduro.


Albano Martins

Imagens: Dima Dmitriev







segunda-feira, 22 de setembro de 2014

NASCIMENTO DO POEMA




É preciso que venha de longe
do vento mais antigo
ou da morte
é preciso que venha impreciso
inesperado como a rosa
ou como o riso
o poema inecessário.

É preciso que ferido de amor
entre pombos
ou nas mansas colinas
que o ódio afaga
ele venha
sob o látego da insónia
morto e preservado.

E então desperta
para o rito da forma
lúcida 
tranquila:
senhor do duplo reino
coroado 
de sóis e luas.


Dora Ferreira da Silva

Imagens GOOGLE










quinta-feira, 4 de setembro de 2014

FOI.






Foi quando começou a não se importar tanto de sentir tanto medo,que ouviu o convite, ainda tímido, quase sussurro, do próprio coração, esse sabedor do que, de verdade, importa:

" Volta, com medo e tudo."

Foi.

E recomeçou a redescobrir, que coragem, na maioria das vezes, é apenas voltar para o próprio coração. É apenas calar a ausência devastadora e infértil dele. É apenas sair do lugar para um ponto um pouquinho mais espaçoso e espalhador de sementes.

É apenas seguir. Com medo e tudo.

Ana Jácomo

Imagens do GOOGLE







sábado, 2 de agosto de 2014

MAR DE AGOSTO






Deixa ficar comigo a madrugada,
para que a luz do Sol me não constranja.
Numa taça de sombra estilhaçada, 
deita sumo de lua e de laranja.

Arranja uma pianola, um disco, um posto,
onde eu ouça o estertor de uma gaivota...
Crepite, em derredor, o mar de Agosto...
E o outro cheiro, o teu , à minha volta!

Depois, podes partir. Só te aconselho
que acendas, para tudo ser perfeito,
à cabeceira a luz do teu joelho,
entre os lençóis o lume do teu peito...

Podes partir. De nada mais preciso
para a minha ilusão do Paraíso.


David Mourão-Ferreira

Imagens GOOGLE







sábado, 26 de julho de 2014

SONETO DO AMOR E DA MORTE







quando eu morrer murmura esta canção
que escrevo para ti. quando eu morrer
fica junto de mim, não queiras ver
as aves pardas do anoitecer
a revoar na minha solidão.

quando eu morrer segura a minha mão,
põe os olhos nos meus se puder ser,
se inda neles a luz esmorecer
e diz do nosso amor como se não

tivesse de acabar, sempre a doer,
sempre a doer de tanta perfeição
que ao deixar de bater-me o coração
fique por nós o teu inda a bater,
quando eu morrer segura a minha mão.


Vasco Graça Moura

Imagens GOOGLE






terça-feira, 22 de julho de 2014

DEIXEM-ME SONHAR


Andrei Belichenko




Deixem-me sonhar, à procura
dos sinais ocultos do caminho.
É nas asas do sonho que a loucura
faz o ninho.

Deixem-me ser livre como o vento
sem rumo nem compromisso.
O sonho é o lugar do pensamento
insubmisso.

António Arnaut




sábado, 19 de julho de 2014

GALGO NUM OLHAR O VERDE QUE SE ESTENDE





galgo num olhar o verde que se estende
lentamente
e veloz recuo no tempo
galgando os tempos da minha infância

sorvo o doce profundo da natureza
imanente
no hálito fresco e húmido da manhã

gotas de orvalho cintilam
como lágrimas
num rosto de inefável beleza

a paisagem palpita
de luz, cores, odores, sons
- em tropel as sensações

fecho os olhos - a volúpia antiga:
tudo retenho
pintado 
numa tela de retina

algo se funde em mim


Teresa Souto

Imagens: Carol Cavalaris







terça-feira, 8 de julho de 2014

DÁ-ME UM LUGAR






Dá-me um lugar

um lugar onde possa reclinar a cabeça
um colo onde possa adormecer
e te saiba por perto

dá-me mãos inteiras de chuva
os lírios que a manhã me trouxe aos olhos
uma única razão para o dilúvio

e eu dar-te-ei um verso 
do tamanho de uma casa


José Rui Teixeira

Imagens: Igor V. Kapustin