quinta-feira, 13 de novembro de 2014

ÂNSIA




Não me deixem tranquilo
não me guardem sossego
eu quero a ânsia da onda
o eterno rebentar da espuma

As horas são-me escassas:
dai-me o tempo
ainda que o não mereça
que eu quero
ter outra vez
idades que nunca tive
para ser sempre
eu e a vida
nesta dança desencontrada
como se de corpos
tivéssemos trocado
para morrer vivendo


Mia Couto

Pinturas: Victor Bauer 



segunda-feira, 10 de novembro de 2014

TALVEZ NÃO SAIBAS





Talvez não saibas
Mas dormes nos meus dedos
De onde fazem ninho as andorinhas
E crescem frutos ruivos e há segredos
Das mais pequenas coisas que são minhas

Talvez tu não conheças, mas existe
Um bosque de folhagem permanente
Aonde não te encontro e fico triste
Mas só de te buscar fico contente

Oh meu amor quem sabe se tu sabes
Sequer, que em ti existe, ou só demora
Ou são como as palavras essas aves
Que cantam o teu nome e a toda a hora

Talvez não saibas, mas digo que te amo
A construir o mar em nossa casa
Que é por ti que pergunto e por ti chamo
Se a noite estende em mim a sua asa

Talvez não compreendas , mas o vento
Anda a espalhar em ti os meus recados
E que há pôr do sol no pensamento
Quando os dias são azuis e perfumados

Oh meu amor quem sabe se tu sabes
Sequer, que em ti existe, ou só demora
Ou são como as palavras essas aves
Que cantam o teu nome e a toda a hora



Joaquim Pessoa

Imagens: Inna Tsukakhina






sexta-feira, 7 de novembro de 2014

NOTURNO





O pensamento apoiado à janela
se encolhe num canto da noite.
                                                Não há vozes
                                       nem sonhos.

Apenas uma certeza.
Se o silêncio tivesse tamanho
não caberia em lugar algum.


Helena Chiarello

Imagens:GOOGLE








terça-feira, 4 de novembro de 2014

DIA 34





Sagrado é o coração da árvore, a vigília da pedra, a gravidez da amêndoa, o pulsar do rio, a timidez do bosque, o trabalho discreto da semente. Sagrado é o lenho, e a erva, o cavalo, o boi e o cão, sagrado é o sol, sagrada a casa, a noite, o dia, o círculo e a pirâmide. E sagrado é o vento e a vontade, e o branco e a esperança. Sagrados são os montes e os filhos e os sentidos e os pássaros e os humildes. É sagrada a dança e a cabeça e o azul e a primavera. Sagrados são os cornos do inverno. E as flores amarelas. Sagrado é o desejo que humedece o corpo. Sagrada é a distância. E a memória. Sagrados são os lábios, o cérebro e as mãos. E os astros, e a espuma e a teimosia dos metais. E é sagrada a arte e o amor e a claridade. E o centro do homem. E a voz da terra. E o equilíbrio dos instintos. E o mistério dos mortos e dos vivos. E as razões do amor. Sagrada é a forma e a beleza e a luz e o fogo dos teus olhos.


Joaquim Pessoa, in Ano Comum 

Imagens: GOOGLE





domingo, 2 de novembro de 2014

RETRATO DE AMIGO




Por ti falo. E ninguém sabe. Mas eu digo
meu irmão     minha amêndoa     meu amigo
meu tropel de ternura     minha casa
meu jardim de carência    minha asa.
Por ti morro e ninguém pensa. Mas eu sigo
um caminho de nardos empestados
uma intensa e terrífica ternura
rodeado de cardos por muitíssimos lados.

Meu perfume de tudo     minha essência
meu lume     minha lava     meu labéu
como é possível não chegar ao cume
de tão lavado céu?


Ary dos Santos

Imagens: GOOGLE





quinta-feira, 30 de outubro de 2014

ESPERA






Deito-me tarde
Espero por uma espécie de silêncio
Que nunca chega cedo
Espero a atenção a concentração da hora tardia
Ardente e nua
É então que os espelhos acendem o seu segundo brilho
É então que se vê o desenho do vazio
É então que se vê subitamente
A nossa própria mão poisada sobre a mesa

É então que se vê passar o silêncio 

Navegação antiquíssima e solene



Sophia de Mello Breyner Andresen,  in GEOGRAFIA

Imagens: Amanda Cass








segunda-feira, 27 de outubro de 2014

LILLA PETE

 

                          LILLA PETE                                  

 Bach Es-dur Sonata Flute


" Não ouças o rouxinol. Nem a cotovia. 
É dentro de ti que toda a música é ave."



Eugénio de Andrade in Branco no Branco






sábado, 25 de outubro de 2014

BREVE CANÇÃO DO VENTO OESTE





Ele há-de vir o vento oeste
ele há-de vir e há-de levar
as vãs palavras que escreveste.
Ele há-de vir com seu presságio
e os címbalos que já trazem o som do inverno
ele há-de vir o vento oeste e há-de apagar
o verão que parecia ser eterno.

Ele há-de vir com seu adágio
suas orquestras em convés que vão ao fundo
ele há-de vir e há-de apagar
a escrita  a jura  as ilusões do mundo.

Em cada verso há um naufrágio
não sei de poema que não seja mar.


Manuel Alegre

Imagens: Adam Pekalski






segunda-feira, 20 de outubro de 2014

OS POEMAS SÃO PÁSSAROS


Raymond Mottl




Os poemas são pássaros que chegam
não se sabe de onde e pousam
no livro que lês.
Quando fechas o livro, eles alçam voo
como de um alçapão.
Eles não têm pouso
nem porto
alimentam-se um instante em cada par de mãos
e partem.
E, olhas, então, essas tuas mãos vazias,
no maravilhado espanto de saberes
que o alimento deles já estava em ti...



Mario Quintana





Imagem: GOOGLE


sexta-feira, 17 de outubro de 2014

LÁ...


Saleem  Khawar




Leva-me os olhos, gaivota,
e deixa-os cair lá longe naquela ilha sem rota...

Lá...
onde os cravos e os jasmins
nunca se repetem nos jardins...

Lá...
onde a mesma aranha tece a mesma teia
na mesma escuridão das mesmas casas...

Lá...
onde toda a noite canta uma sereia
... e a lua tem asas...
Lá...


José gomes Ferreira



terça-feira, 14 de outubro de 2014

ASTROS




Não vale a pena procurar astros morrentes, que para tal nos basta o espelho de água, nas voltas do tempo vário.
Grandiosa a corrida dos peixes rio acima, na sua estação de esperanças,
na ignorância da força da corrente.
Maior é a força que carregam.
Correm as folhas do Outono, monte abaixo, ao sabor da levada, arrefecida a seiva, cegas pelas esperas.
Entre o peixe e a folha um astro se levanta.
Nascentes, inaugurais, brotam  palavras.



Licínia Quitério

Imagens: GOOGLE






segunda-feira, 13 de outubro de 2014

TARDES INVENTADAS




As tardes inventei-as.

Fulgurantes umas,
sonolentas outras,
quentes ou arrepiantes
e todas
geradoras de instantes
impossíveis...

Atiro um braço ao ar
e quero que ele prenda um estrela,
um cometa, o floco de renda
de mil cassiopeias...

É dia e há luar...

As tardes inventei-as.



Saúl Dias

Imagens: GOOGLE




sexta-feira, 10 de outubro de 2014

CONFISSÃO





De um e outro lado do que sou, 
da luz e da obscuridade,
do ouro e do pó,
ouço pedirem-me que escolha;
e deixe para trás a inquietação,
a dor,
um peso de não sei que ansiedade.

Mas levo comigo tudo
o que recuso. Sinto
colar-se-me às costas
um resto de noite;
e mão sei voltar-me
para a frente onde 
amanhece.


Nuno Júdice

Imagens: Nathalie Picoulet







domingo, 5 de outubro de 2014

VIVER...





Viver uma vida desapaixonada e culta, ao relento das ideias, lendo, sonhando e pensando em escrever, uma vida suficientemente lenta para estar sempre à beira do tédio, bastante meditada para se nunca encontrar  nele. Viver essa vida longe das emoções e dos pensamentos , só no pensamento das emoções e na emoção dos pensamentos. Estagnar ao sol, douradamente, como um lago obscuro rodeado de flores. Ter , na sombra, aquela fidalguia da individualidade que consiste em não insistir para nada com a vida. Ser no volteio dos mundos como uma poeira de flores, que um vento incógnito ergue pelo ar da tarde, e o torpor do anoitecer deixa baixar no lugar de acaso, indistinta entre coisas maiores. Ser isto com um conhecimento seguro, nem alegre nem triste, reconhecido ao sol do seu brilho e às estrelas do seu afastamento.
Não ser mais, não ter mais, não querer mais... A música do faminto, a canção do cego, a relíquia do viandante incógnito, as passadas no deserto do camelo vazio sem destino...


Fernando Pessoa/Bernardo Soares  in Livro do Desassossego

Imagens: Google






quinta-feira, 2 de outubro de 2014

O TEMPO É OUTRO RIO


Sophia  Michailidou


Quase sempre o tempo é outro rio,
uma música larga e possessiva, uma forma
de avidez lunar, de apetite cósmico
que não nos poupa nem nos ama.
Prefigura este rio todo o assombro
que o século e o instante
semeiam na passagem, não passando.

A ruga é o leito de outra água,
da que rasga e avassala, da que arqueia
o dorso do que escreve e do que espera.
Um relógio de quadrante guarda-se
para a contabilidade de outras horas
que não as do sono, que não as do pasmo.

Demora-se o rosto a ver-se envelhecer,
reverbero de lua mansa na areia
onde o corpo ancora e se faz casa.

O tempo é outro rio que passa largo,
ao largo da boca que o chama e se consome.


José Jorge Letria



Brita Seifert

terça-feira, 30 de setembro de 2014

IDADES






No início,
eu queria um instante.
A flor.

Depois,
nem a eternidade me bastava.
E desejava a vertigem
do incêndio partilhado.
O fruto.

Agora,
quero apenas
o que havia antes de haver vida.
A semente.


Mia Couto

Imagens: GOOGLE





sábado, 27 de setembro de 2014





"A noite é mais pura do que o dia,é melhor para pensar, amar e sonhar. À noite tudo é mais intenso, mais verdadeiro. O eco das palavras que foram ditas durante o dia assume um significado novo e mais profundo."


Elie Wiesel

Imagens GOOGLE





quinta-feira, 25 de setembro de 2014

UM DIA VOLTAREI







Um dia voltarei à morada das papoilas
colher os versos vermelhos
que semeei na seara.

Um dia o vento estará maduro.


Albano Martins

Imagens: Dima Dmitriev







segunda-feira, 22 de setembro de 2014

NASCIMENTO DO POEMA




É preciso que venha de longe
do vento mais antigo
ou da morte
é preciso que venha impreciso
inesperado como a rosa
ou como o riso
o poema inecessário.

É preciso que ferido de amor
entre pombos
ou nas mansas colinas
que o ódio afaga
ele venha
sob o látego da insónia
morto e preservado.

E então desperta
para o rito da forma
lúcida 
tranquila:
senhor do duplo reino
coroado 
de sóis e luas.


Dora Ferreira da Silva

Imagens GOOGLE










quinta-feira, 4 de setembro de 2014

FOI.






Foi quando começou a não se importar tanto de sentir tanto medo,que ouviu o convite, ainda tímido, quase sussurro, do próprio coração, esse sabedor do que, de verdade, importa:

" Volta, com medo e tudo."

Foi.

E recomeçou a redescobrir, que coragem, na maioria das vezes, é apenas voltar para o próprio coração. É apenas calar a ausência devastadora e infértil dele. É apenas sair do lugar para um ponto um pouquinho mais espaçoso e espalhador de sementes.

É apenas seguir. Com medo e tudo.

Ana Jácomo

Imagens do GOOGLE







sábado, 2 de agosto de 2014

MAR DE AGOSTO






Deixa ficar comigo a madrugada,
para que a luz do Sol me não constranja.
Numa taça de sombra estilhaçada, 
deita sumo de lua e de laranja.

Arranja uma pianola, um disco, um posto,
onde eu ouça o estertor de uma gaivota...
Crepite, em derredor, o mar de Agosto...
E o outro cheiro, o teu , à minha volta!

Depois, podes partir. Só te aconselho
que acendas, para tudo ser perfeito,
à cabeceira a luz do teu joelho,
entre os lençóis o lume do teu peito...

Podes partir. De nada mais preciso
para a minha ilusão do Paraíso.


David Mourão-Ferreira

Imagens GOOGLE