sexta-feira, 10 de outubro de 2014

CONFISSÃO





De um e outro lado do que sou, 
da luz e da obscuridade,
do ouro e do pó,
ouço pedirem-me que escolha;
e deixe para trás a inquietação,
a dor,
um peso de não sei que ansiedade.

Mas levo comigo tudo
o que recuso. Sinto
colar-se-me às costas
um resto de noite;
e mão sei voltar-me
para a frente onde 
amanhece.


Nuno Júdice

Imagens: Nathalie Picoulet







domingo, 5 de outubro de 2014

VIVER...





Viver uma vida desapaixonada e culta, ao relento das ideias, lendo, sonhando e pensando em escrever, uma vida suficientemente lenta para estar sempre à beira do tédio, bastante meditada para se nunca encontrar  nele. Viver essa vida longe das emoções e dos pensamentos , só no pensamento das emoções e na emoção dos pensamentos. Estagnar ao sol, douradamente, como um lago obscuro rodeado de flores. Ter , na sombra, aquela fidalguia da individualidade que consiste em não insistir para nada com a vida. Ser no volteio dos mundos como uma poeira de flores, que um vento incógnito ergue pelo ar da tarde, e o torpor do anoitecer deixa baixar no lugar de acaso, indistinta entre coisas maiores. Ser isto com um conhecimento seguro, nem alegre nem triste, reconhecido ao sol do seu brilho e às estrelas do seu afastamento.
Não ser mais, não ter mais, não querer mais... A música do faminto, a canção do cego, a relíquia do viandante incógnito, as passadas no deserto do camelo vazio sem destino...


Fernando Pessoa/Bernardo Soares  in Livro do Desassossego

Imagens: Google






quinta-feira, 2 de outubro de 2014

O TEMPO É OUTRO RIO


Sophia  Michailidou


Quase sempre o tempo é outro rio,
uma música larga e possessiva, uma forma
de avidez lunar, de apetite cósmico
que não nos poupa nem nos ama.
Prefigura este rio todo o assombro
que o século e o instante
semeiam na passagem, não passando.

A ruga é o leito de outra água,
da que rasga e avassala, da que arqueia
o dorso do que escreve e do que espera.
Um relógio de quadrante guarda-se
para a contabilidade de outras horas
que não as do sono, que não as do pasmo.

Demora-se o rosto a ver-se envelhecer,
reverbero de lua mansa na areia
onde o corpo ancora e se faz casa.

O tempo é outro rio que passa largo,
ao largo da boca que o chama e se consome.


José Jorge Letria



Brita Seifert

terça-feira, 30 de setembro de 2014

IDADES






No início,
eu queria um instante.
A flor.

Depois,
nem a eternidade me bastava.
E desejava a vertigem
do incêndio partilhado.
O fruto.

Agora,
quero apenas
o que havia antes de haver vida.
A semente.


Mia Couto

Imagens: GOOGLE





sábado, 27 de setembro de 2014





"A noite é mais pura do que o dia,é melhor para pensar, amar e sonhar. À noite tudo é mais intenso, mais verdadeiro. O eco das palavras que foram ditas durante o dia assume um significado novo e mais profundo."


Elie Wiesel

Imagens GOOGLE





quinta-feira, 25 de setembro de 2014

UM DIA VOLTAREI







Um dia voltarei à morada das papoilas
colher os versos vermelhos
que semeei na seara.

Um dia o vento estará maduro.


Albano Martins

Imagens: Dima Dmitriev







segunda-feira, 22 de setembro de 2014

NASCIMENTO DO POEMA




É preciso que venha de longe
do vento mais antigo
ou da morte
é preciso que venha impreciso
inesperado como a rosa
ou como o riso
o poema inecessário.

É preciso que ferido de amor
entre pombos
ou nas mansas colinas
que o ódio afaga
ele venha
sob o látego da insónia
morto e preservado.

E então desperta
para o rito da forma
lúcida 
tranquila:
senhor do duplo reino
coroado 
de sóis e luas.


Dora Ferreira da Silva

Imagens GOOGLE










quinta-feira, 4 de setembro de 2014

FOI.






Foi quando começou a não se importar tanto de sentir tanto medo,que ouviu o convite, ainda tímido, quase sussurro, do próprio coração, esse sabedor do que, de verdade, importa:

" Volta, com medo e tudo."

Foi.

E recomeçou a redescobrir, que coragem, na maioria das vezes, é apenas voltar para o próprio coração. É apenas calar a ausência devastadora e infértil dele. É apenas sair do lugar para um ponto um pouquinho mais espaçoso e espalhador de sementes.

É apenas seguir. Com medo e tudo.

Ana Jácomo

Imagens do GOOGLE







sábado, 2 de agosto de 2014

MAR DE AGOSTO






Deixa ficar comigo a madrugada,
para que a luz do Sol me não constranja.
Numa taça de sombra estilhaçada, 
deita sumo de lua e de laranja.

Arranja uma pianola, um disco, um posto,
onde eu ouça o estertor de uma gaivota...
Crepite, em derredor, o mar de Agosto...
E o outro cheiro, o teu , à minha volta!

Depois, podes partir. Só te aconselho
que acendas, para tudo ser perfeito,
à cabeceira a luz do teu joelho,
entre os lençóis o lume do teu peito...

Podes partir. De nada mais preciso
para a minha ilusão do Paraíso.


David Mourão-Ferreira

Imagens GOOGLE







sábado, 26 de julho de 2014

SONETO DO AMOR E DA MORTE







quando eu morrer murmura esta canção
que escrevo para ti. quando eu morrer
fica junto de mim, não queiras ver
as aves pardas do anoitecer
a revoar na minha solidão.

quando eu morrer segura a minha mão,
põe os olhos nos meus se puder ser,
se inda neles a luz esmorecer
e diz do nosso amor como se não

tivesse de acabar, sempre a doer,
sempre a doer de tanta perfeição
que ao deixar de bater-me o coração
fique por nós o teu inda a bater,
quando eu morrer segura a minha mão.


Vasco Graça Moura

Imagens GOOGLE






terça-feira, 22 de julho de 2014

DEIXEM-ME SONHAR


Andrei Belichenko




Deixem-me sonhar, à procura
dos sinais ocultos do caminho.
É nas asas do sonho que a loucura
faz o ninho.

Deixem-me ser livre como o vento
sem rumo nem compromisso.
O sonho é o lugar do pensamento
insubmisso.

António Arnaut




sábado, 19 de julho de 2014

GALGO NUM OLHAR O VERDE QUE SE ESTENDE





galgo num olhar o verde que se estende
lentamente
e veloz recuo no tempo
galgando os tempos da minha infância

sorvo o doce profundo da natureza
imanente
no hálito fresco e húmido da manhã

gotas de orvalho cintilam
como lágrimas
num rosto de inefável beleza

a paisagem palpita
de luz, cores, odores, sons
- em tropel as sensações

fecho os olhos - a volúpia antiga:
tudo retenho
pintado 
numa tela de retina

algo se funde em mim


Teresa Souto

Imagens: Carol Cavalaris







terça-feira, 8 de julho de 2014

DÁ-ME UM LUGAR






Dá-me um lugar

um lugar onde possa reclinar a cabeça
um colo onde possa adormecer
e te saiba por perto

dá-me mãos inteiras de chuva
os lírios que a manhã me trouxe aos olhos
uma única razão para o dilúvio

e eu dar-te-ei um verso 
do tamanho de uma casa


José Rui Teixeira

Imagens: Igor V. Kapustin












sexta-feira, 27 de junho de 2014

NOS TEUS OLHOS ALGUÉM ANDA NO MAR






Nos teus olhos alguém anda no mar
alguém se afoga e grita por socorro
e és tu que vais ao fundo devagar
enquanto eu sobre ti eu quase morro.

E de repente voltas do abismo
e nos teus olhos há um choro riso
teu corpo agora é lava e fogo e sismo
de certo modo já não sou preciso.

Na tua pele toda a terra treme
alguém fala com Deus alguém flutua
há um corpo a navegar e um anjo ao leme.

Das tuas coxas pode ver-se a Lua
contigo o mar ondula e o vento geme
e há um espírito a nascer de seres tão nua.



Manuel Alegre

Imagens: Harun Mehmedinovic









segunda-feira, 16 de junho de 2014

SE EU E TU





Se eu fosse peixe e tu fosses mar
nadava por dentro de ti 
vivia do teu corpo.
Se eu fosse pássaro e tu fosses ar
cortava-te como uma flecha
sem nunca te magoar.
Se eu fosse sol e tu fosses neve
em rio te transformava
e havias de ver o mar.
Se eu fosse chuva e tu fosses terra
cresciam de um dia para o outro
as flores na tua pele.
Se eu fosse vento e tu fosses vela
levava-te a ver o mundo
por sobre as águas do mar.


João Pedro Mésseder

Imagens: Google









quarta-feira, 4 de junho de 2014









Já vi borboletas voarem faltando um pedaço da asa e rosas incríveis desabrocharem num copo de água. E é disso que me nutro para acreditar que a meteorologia nem sempre está certa e que dias cinzentos podem ser prefácios de noites com sol.

Marla de Queiroz

Imagem: Google






quarta-feira, 28 de maio de 2014

ASAS AFLITAS




asas aflitas

fase silenciosa
antes do amanhecer

( como demora o sol
quando se espera por ele)

asas aflitas o pressentem

( sou do bando dos pássaros
acordadores do sol)

desde sempre assim
( antiga sina)

eu espero por ele
ele espera por mim

- e a noite perpetua


Nydia Bonetti

Imagens: Alaya Gadeh




quinta-feira, 22 de maio de 2014

SILÊNCIO





(...) Minha vocação é o silêncio.
Foi meu pai que me explicou: tenho inclinação para não falar, um talento para apurar silêncios. Escrevo bem, silêncios, no plural. Sim, porque não há um único silêncio. 
E todo o silêncio é música em estado de gravidez.
Quando me viam, parado e recatado, no meu invisível recanto, eu não estava pasmado. Estava desempenhando, de alma e corpo ocupados: tecia os delicados fios com que se fabrica a quietude.
Eu era um afinador de silêncios. (...)




Mia Couto, in Jesusalém

Imagens Google




quinta-feira, 8 de maio de 2014

O TU E O EU NA PAISAGEM





Não é o restolhar do vento.
É  a tua lembrança
que se ergue em mim.

Não é a rosa do sol a esfolhar-se.
É a minha boca - sede e romã -
que sangra na tarde.

Não é a noite que desce.
É a sombra dos teus olhos
a fechar o horizonte.


Luísa Dacosta

Imagens Google







sábado, 3 de maio de 2014

AMAVISSE


Chelin Sanjuan





Como se te perdesse, assim te quero.
Como se não te visse ( favas douradas
Sob um amarelo) assim te apreendo brusco
Inamovível, e te respiro inteiro.

Um arco-íris de ar em águas profundas.

Como se tudo mais me permitisses,
A mim me fotografo nuns portões de ferro
Ocres, altos, e eu mesma diluída e mínima
no dissoluto de toda a despedida.
Como se te perdesses nos trens, nas estações
Ou contornando um círculo de águas
Removente ave, assim te somo a mim:
De redes e de anseios inundada.

Hilda Hilst










quinta-feira, 1 de maio de 2014

HOUVE UMA ILHA EM TI QUE EU CONQUISTEI







Houve uma ilha em ti que eu conquistei.
Uma ilha num mar de solidão.
Tinha um nome a ilha onde morei.
Chamava-se essa ilha Coração.

Que saudades do tempo que passei.
Nenhum desses momentos foi em vão.
Do teu corpo, de ti, já nada sei.
Também não sei da ilha, não sei não.

Só sei de mim, coberto de raízes.
Enterrei os momentos mais felizes.
Vivo agora na sombra a recordar.

A ilha que eu amei já não existe.
Agora amo o céu quando estou triste
por não saber do coração do mar.

Joaquim Pessoa

Imagens Google