quarta-feira, 31 de julho de 2013

SONHO QUE TENHO ASAS DE BORBOLETA



Imagem: Google



Sonho que tenho asas de borboleta.

Voo por entre as flores e deixo-me perfumar.
Pintalgo os pensamentos de cores garridas.

O dia tão cinzento
desvanece 
e promete uma noite com sol...

À sombra, sou agora uma hera
com folhagem verde e viçosa  
a desejar transformar-se em rosa!

Maripa








Imagem: Catherine Beyler


domingo, 28 de julho de 2013

NÃO É MÚSICA





Não é música o que ouvimos.
Não é de água este brilho de prata.

Eu estou aqui sobre as pontes do rio.
Outros são os que espreitam pela bruma das margens.

Talvez me lembre:
tu vinhas devagar pelo lado das acácias.
Cingias cada árvore e as colunas, os braços de um
deus cruel,  o saber dos templos.

Não é um salmo o que ouvimos.
Não é de harpas este lamento,
não é o ofício de umas mãos esculpindo um rosto.
não é a palavra de deus que ecoa nas escarpas.

Algures te ocultas e não deixas sinais.
Quem és tu
cujo perfil se desvanece, cuja doçura se perde nos
confins da tarde?

Eu estou aqui onde se unem as margens,onde escurecem
as sendas e as sombras,
onde correm as nuvens, as pedras , as águas.

Outros são os que te aguardam pelo lado das acácias.


José Agostinho Baptista

Imagens : Google







domingo, 21 de julho de 2013

TU SABES QUE É ASSIM




Trago em mim uma onda triste
feita de muitas lágrimas
e alguns meio sorrisos.

Tu sabes que é assim.

Gotas de mar
esvoaços de gaivota
estilhaços de conchas
salgadas algas verdes
      [vento frio- arrepio]
esperam no porto de abrigo
      [in]certo
que sinto por perto.

É mais fácil partir 
quando o colorido das petúnias
diz adeus ao verão.
Mais simples esquecer as melodias
que aquecem as noites.

Tu sabes que é assim.

Os dias correm depressa,
não vale a pena atrasar
os relógios - repara, amor
como as horas são felizes
quando tudo parece melhor.

O círculo vai-se fechando
[ há uma maré à minha  espera]
e o  mundo continua girando.

Nós sabemos que é assim.

Maripa

Imagens: Google








terça-feira, 16 de julho de 2013

TRANSIÇÃO




Deixemos para trás o ópio
                                               oferecido
o perfume toldado 
                                       de suor
os farrapos da certeza,
no trinco das portas,
                                   uma giesta em flor.

Agarremos as causas / perdidas
                     a lava do vulcão / extinto
o lasso das marés / vazas
                    a borra de um vinho / arinto.

Connosco habita
o maravilhoso poder da criação.


Helena Figueiredo

Imagens: Google 

                           


quarta-feira, 10 de julho de 2013

PARTE-SE





Parte-se,
como uma ânfora desmedida,
o meu coração.
É Junho,
começam a abrir-se as flores da melancolia.

Desço os degraus da casa e da terra.
Fecho os olhos.
Por dentro da sua cor, 
por dentro da sua luz verde,
esses olhos partem para o mar,
quando o crepúsculo cai do outro lado
dos espelhos.

Parece que os girassóis se erguem na berma
das estradas.
Parece que as cegonha dormem.

Nem tu,
cujo rosto vi tantas vezes desenhar-se no
rosto da lua, me poderás salvar.


José Agostinho Baptista

Imagens: Google











terça-feira, 2 de julho de 2013

A ROSA E O MAR





A rosa e o mar

Eu gostaria ainda de falar
da rosa brava e do mar.
A rosa é tão delicada,
o mar tão impetuoso,
que não se como os juntar
e convidar para um chá
na casa breve do poema.

O melhor é não falar:
sorrir-lhes só da janela.



Eugénio de Andrade [do seu livro Infantil " Aquela nuvem e outras"]


Imagens: Google








quarta-feira, 26 de junho de 2013






(...) Meu Deus, a pouco e pouco vamo-nos tornando sotãos onde o passado amarelece, a pouco e pouco os sotãos invadem a casa que somos, principiamos a mover-nos entre sombras truncadas de gente, emoções, memórias. Lentamente tiram-nos tudo, o presente afunila-se, o futuro uma parede. E nós, apesar de adultos, tão crianças, assustados, perdidos, juntando pedaços dispersos para nos reconstruirmos de novo, continuarmos. Na direcção de quê? Para onde? Quem nos espera ainda? (...)





António Lobo Antunes in Livro de Crónicas

Imagens: Cristin Atria












sexta-feira, 21 de junho de 2013

A LETRA MAIS PEQUENA






Caminhas pela praia. As sandálias nas dunas
junto à erva agreste de outros dias. O sol
não te queima, não te fere os olhos ao meio-dia.
Soletramos o amor com a letra mais pequena de uma língua
acabada de inventar. Sabem as gaivotas. Sabe o mar.
Era uma vez. Era assim que se agasalhava a noite
e me enrolava nos teus olhos para encontrar
a luz. Não é com a memória que caminho.
As manhãs são de névoa como as camarinhas
que cresciam nas dunas. Com quem posso 
agora falar de camarinhas? Saborear o gosto
das bagas e dos risos. Vamos apanhando conchas,
castelos, príncipes, borboletas. Vamos perdendo
o que encontramos. As mãos vazias.  Os passos leves.
Os olhos crescem como a erva nas sandálias.


Rosa Alice Branco

Imagens : Google








quarta-feira, 12 de junho de 2013






(...) Por vezes é preciso esquecer para poder continuar. Esquecer, ou pelo menos afastar para um lugar onde não andem à solta, fazendo estragos, provocando sentimentos à deriva, experiências que nos fazem temer que não somos nós que temos mão sobre a vida, mas ela que tem a sua mão sobre nós. (...)


Pedro Paixão in " A cidade depois"

Imagens: Elena Dudina e Google









sábado, 8 de junho de 2013

UM MAR




um mar

era um mar desmesurado
demasiado mar
e ondas
e poder
e grito por vir

era a emoção súbita
a revelar ao meu corpo
sua natureza fragilíssima
sua pequena natureza humana

era o mar a crescer-me no peito
vozes do mundo
homens e mulheres no amor

era o mundo líquido
suspenso entre a minha respiração
e o vértice da minha vida

Silvia Chueire

Imagens: Google








quarta-feira, 5 de junho de 2013

BREVE






Breve
o botão que foste
e o pudor de sê-lo.
Breve
o laço vermelho
dado no cabelo.
Breve
a flor que abriu
e o sol mudou.
Breve 
tanto sonho findo
que a vida pisou. 

João José Cochofel

Imagens: Google





domingo, 2 de junho de 2013

ANTES QUE






Antes que

Preciso ler um bom poema antes
de dormir
antes que a noite encerre o
diário inventário das lembranças
antes que o sono cale a boca e olhar, antes
que o prumo caia
horizontal.
Preciso ler um bom poema antes
que seja tarde
que fique escuro
que chegue o frio.
Ler um bom poema
antes que a morte venha
e escreva o seu.

Marina Colasanti

Imagens: Google




sábado, 1 de junho de 2013

DIA MUNDIAL DA CRIANÇA





Quando eu era menina, olhava o rio que corria ao encontro do mar e,
com prazer, diluía os olhos que então tinha na beleza dos reflexos que a luz do sol desenhava nas águas mansas... 

Quando eu era menina apanhava flores silvestres e com elas fazia raminhos; abraçada à sua cor, deixava-me levar até ao arco-íris mais próximo.

Quando eu era ainda menina, sentava-me no chão a roer maçãs à sombra da macieira que me servia de chapéu; ali ficava, pensativa, a olhar o céu, esperando a resposta a tantas perguntas que me escorriam pelos cantos da boca. 
Respostas impossíveis às perguntas impossíveis com que nasci...

Quando eu era menina nem tudo era simples, mas a fantasia, num passo mágico, transformava as dificuldades em borboletas e tudo voltava a brilhar...

Por isso gostei tanto de ser menina, de ser criança.

Ainda hoje guardo em mim pedaços dessa menina.

Maripa



Imagens: Ruth  Morehead





terça-feira, 28 de maio de 2013

EU

Imagem: Alastair Magnaldo



Talvez a demora da vida me leve a marcar pegadas que estão por vir
E dou por mim fugindo de mim em busca do todo que me falta
E é urgente as luas acelerarem as marés
E o meu encontro no centro da tempestade, bebendo a última gota de sal

Talvez a demora da vida me encontre e denuncie
E eu obedientemente espere por ela
Enquanto me perfumo de terra e mar

Porque nenhuma palavra fala de mim
Apenas esse cheiro a mar...


Rita Freitas




Imagem: Google


sábado, 25 de maio de 2013

MUSIC PAINTING






Lacrime di Giulietta

de

Matteo Negrin


In the beginning there was Nature
... there something happened
...and it got bigger... and bigger
They tried to coexist...
... but it wasn't easy
Leave your car...plant a tree
Stop global warming...
enjoy nature!



Zambujeira do Mar



Rio Mondego



Mata do Buçaco


Ilha das Flores [Açores]




... a Natureza dando cor ao nosso olhar! 

terça-feira, 21 de maio de 2013

COMPREENDI...




"Compreendi que viver é ser livre... Que ter amigos é necessário... Que lutar é manter-se vivo... Que pra ser feliz basta querer... Aprendi que o tempo cura... Que mágoa passa... Que decepção não mata... Que hoje é reflexo de ontem... Compreendi que podemos chorar sem derramar lágrimas... Que os verdadeiros amigos permanecem... Que dor fortalece... Que vencer engrandece... Aprendi que sonhar não é fantasiar... Que pra sorrir tem que fazer alguém sorrir... Que a beleza não está no que vemos, e sim no que sentimos... Que o valor está na força da conquista... Compreendi que as palavras têm força... Que fazer é melhor que falar... Que o olhar não mente... Que viver é aprender com os erros... Aprendi que tudo depende da vontade... que o melhor é ser nós mesmos... Que o segredo da vida é viver!"




Clarice Lispector

Imagens: Google








domingo, 19 de maio de 2013

META_DES





A vida me faz em metades
metade gente
metade natureza
metade alegria
metade tristeza.

Tem dias que carrego o mundo dentro de mim
em outros sou vazio sem fim.

Tem dias que uivo noite adentro
em outros gorjeio feito ave
adejando-me por entre nuvens e ventos
às vezes piso em marte.

Tem dias que chovo,
ora fino, ora torrencialmente,
em outros broto-me semente.

Já desabrochei flor,
já despontei sol,
já adormeci loba,
já amanheci rouxinol.

Muitas vezes tento juntar as partes, nunca consigo!
elas se rejeitam...sofrem de incompatibilidades.

Assim me levo... tempo que segue, pedaços-metades!


Ana Merij

Imagens: Google







quarta-feira, 15 de maio de 2013

MANHÃS NO CHÃO





Aceitar o dia. O que vier.
Atravessar mais ruas do que casas,
mais gente do que ruas. Atravessar
a pele até ao outro lado. Enquanto
faço e desfaço o dia. O teu coração
dorme comigo. Agasalha-me as noites
e as manhãs são frias quando me levanto.
E pergunto sempre onde estás e porque
as ruas deixaram de ser rios. Às vezes
uma gota de água cai no chão
como se fosse uma lágrima. Às vezes
não há chão que baste para a enxugar.


Rosa Alice Branco






Imagens: Rassouli



sábado, 11 de maio de 2013

[ESTA SAUDADE]




Uma folha de papel em branco
pode guardar mil palavras
mil palavras silenciosas
tristes
sem luz
sem cor
e sem qualquer valor

[esta saudade de escrever]

nem sempre os pensamentos
filhos de madrugadas mal dormidas
conseguem unir-se coerentes
em ideias com sentido e sabor

nem sempre as flores brancas
que desejo oferecer
parecem suficientemente belas
diferentes
perfumadas
de palavras ternas
de dizer

[esta saudade]

nem sempre o mar magoado
- ondas a chorar ausências -
de marés iluminadas 
pelo antigo sol poente 
pode atrasar 
a hora da partida

(e a vontade louca de chorar].

Maripa

Imagens: Catherine Beyler