terça-feira, 14 de outubro de 2014

ASTROS




Não vale a pena procurar astros morrentes, que para tal nos basta o espelho de água, nas voltas do tempo vário.
Grandiosa a corrida dos peixes rio acima, na sua estação de esperanças,
na ignorância da força da corrente.
Maior é a força que carregam.
Correm as folhas do Outono, monte abaixo, ao sabor da levada, arrefecida a seiva, cegas pelas esperas.
Entre o peixe e a folha um astro se levanta.
Nascentes, inaugurais, brotam  palavras.



Licínia Quitério

Imagens: GOOGLE






segunda-feira, 13 de outubro de 2014

TARDES INVENTADAS




As tardes inventei-as.

Fulgurantes umas,
sonolentas outras,
quentes ou arrepiantes
e todas
geradoras de instantes
impossíveis...

Atiro um braço ao ar
e quero que ele prenda um estrela,
um cometa, o floco de renda
de mil cassiopeias...

É dia e há luar...

As tardes inventei-as.



Saúl Dias

Imagens: GOOGLE




sexta-feira, 10 de outubro de 2014

CONFISSÃO





De um e outro lado do que sou, 
da luz e da obscuridade,
do ouro e do pó,
ouço pedirem-me que escolha;
e deixe para trás a inquietação,
a dor,
um peso de não sei que ansiedade.

Mas levo comigo tudo
o que recuso. Sinto
colar-se-me às costas
um resto de noite;
e mão sei voltar-me
para a frente onde 
amanhece.


Nuno Júdice

Imagens: Nathalie Picoulet







domingo, 5 de outubro de 2014

VIVER...





Viver uma vida desapaixonada e culta, ao relento das ideias, lendo, sonhando e pensando em escrever, uma vida suficientemente lenta para estar sempre à beira do tédio, bastante meditada para se nunca encontrar  nele. Viver essa vida longe das emoções e dos pensamentos , só no pensamento das emoções e na emoção dos pensamentos. Estagnar ao sol, douradamente, como um lago obscuro rodeado de flores. Ter , na sombra, aquela fidalguia da individualidade que consiste em não insistir para nada com a vida. Ser no volteio dos mundos como uma poeira de flores, que um vento incógnito ergue pelo ar da tarde, e o torpor do anoitecer deixa baixar no lugar de acaso, indistinta entre coisas maiores. Ser isto com um conhecimento seguro, nem alegre nem triste, reconhecido ao sol do seu brilho e às estrelas do seu afastamento.
Não ser mais, não ter mais, não querer mais... A música do faminto, a canção do cego, a relíquia do viandante incógnito, as passadas no deserto do camelo vazio sem destino...


Fernando Pessoa/Bernardo Soares  in Livro do Desassossego

Imagens: Google






quinta-feira, 2 de outubro de 2014

O TEMPO É OUTRO RIO


Sophia  Michailidou


Quase sempre o tempo é outro rio,
uma música larga e possessiva, uma forma
de avidez lunar, de apetite cósmico
que não nos poupa nem nos ama.
Prefigura este rio todo o assombro
que o século e o instante
semeiam na passagem, não passando.

A ruga é o leito de outra água,
da que rasga e avassala, da que arqueia
o dorso do que escreve e do que espera.
Um relógio de quadrante guarda-se
para a contabilidade de outras horas
que não as do sono, que não as do pasmo.

Demora-se o rosto a ver-se envelhecer,
reverbero de lua mansa na areia
onde o corpo ancora e se faz casa.

O tempo é outro rio que passa largo,
ao largo da boca que o chama e se consome.


José Jorge Letria



Brita Seifert

terça-feira, 30 de setembro de 2014

IDADES






No início,
eu queria um instante.
A flor.

Depois,
nem a eternidade me bastava.
E desejava a vertigem
do incêndio partilhado.
O fruto.

Agora,
quero apenas
o que havia antes de haver vida.
A semente.


Mia Couto

Imagens: GOOGLE





sábado, 27 de setembro de 2014





"A noite é mais pura do que o dia,é melhor para pensar, amar e sonhar. À noite tudo é mais intenso, mais verdadeiro. O eco das palavras que foram ditas durante o dia assume um significado novo e mais profundo."


Elie Wiesel

Imagens GOOGLE





quinta-feira, 25 de setembro de 2014

UM DIA VOLTAREI







Um dia voltarei à morada das papoilas
colher os versos vermelhos
que semeei na seara.

Um dia o vento estará maduro.


Albano Martins

Imagens: Dima Dmitriev







segunda-feira, 22 de setembro de 2014

NASCIMENTO DO POEMA




É preciso que venha de longe
do vento mais antigo
ou da morte
é preciso que venha impreciso
inesperado como a rosa
ou como o riso
o poema inecessário.

É preciso que ferido de amor
entre pombos
ou nas mansas colinas
que o ódio afaga
ele venha
sob o látego da insónia
morto e preservado.

E então desperta
para o rito da forma
lúcida 
tranquila:
senhor do duplo reino
coroado 
de sóis e luas.


Dora Ferreira da Silva

Imagens GOOGLE










quinta-feira, 4 de setembro de 2014

FOI.






Foi quando começou a não se importar tanto de sentir tanto medo,que ouviu o convite, ainda tímido, quase sussurro, do próprio coração, esse sabedor do que, de verdade, importa:

" Volta, com medo e tudo."

Foi.

E recomeçou a redescobrir, que coragem, na maioria das vezes, é apenas voltar para o próprio coração. É apenas calar a ausência devastadora e infértil dele. É apenas sair do lugar para um ponto um pouquinho mais espaçoso e espalhador de sementes.

É apenas seguir. Com medo e tudo.

Ana Jácomo

Imagens do GOOGLE







sábado, 2 de agosto de 2014

MAR DE AGOSTO






Deixa ficar comigo a madrugada,
para que a luz do Sol me não constranja.
Numa taça de sombra estilhaçada, 
deita sumo de lua e de laranja.

Arranja uma pianola, um disco, um posto,
onde eu ouça o estertor de uma gaivota...
Crepite, em derredor, o mar de Agosto...
E o outro cheiro, o teu , à minha volta!

Depois, podes partir. Só te aconselho
que acendas, para tudo ser perfeito,
à cabeceira a luz do teu joelho,
entre os lençóis o lume do teu peito...

Podes partir. De nada mais preciso
para a minha ilusão do Paraíso.


David Mourão-Ferreira

Imagens GOOGLE







sábado, 26 de julho de 2014

SONETO DO AMOR E DA MORTE







quando eu morrer murmura esta canção
que escrevo para ti. quando eu morrer
fica junto de mim, não queiras ver
as aves pardas do anoitecer
a revoar na minha solidão.

quando eu morrer segura a minha mão,
põe os olhos nos meus se puder ser,
se inda neles a luz esmorecer
e diz do nosso amor como se não

tivesse de acabar, sempre a doer,
sempre a doer de tanta perfeição
que ao deixar de bater-me o coração
fique por nós o teu inda a bater,
quando eu morrer segura a minha mão.


Vasco Graça Moura

Imagens GOOGLE






terça-feira, 22 de julho de 2014

DEIXEM-ME SONHAR


Andrei Belichenko




Deixem-me sonhar, à procura
dos sinais ocultos do caminho.
É nas asas do sonho que a loucura
faz o ninho.

Deixem-me ser livre como o vento
sem rumo nem compromisso.
O sonho é o lugar do pensamento
insubmisso.

António Arnaut




sábado, 19 de julho de 2014

GALGO NUM OLHAR O VERDE QUE SE ESTENDE





galgo num olhar o verde que se estende
lentamente
e veloz recuo no tempo
galgando os tempos da minha infância

sorvo o doce profundo da natureza
imanente
no hálito fresco e húmido da manhã

gotas de orvalho cintilam
como lágrimas
num rosto de inefável beleza

a paisagem palpita
de luz, cores, odores, sons
- em tropel as sensações

fecho os olhos - a volúpia antiga:
tudo retenho
pintado 
numa tela de retina

algo se funde em mim


Teresa Souto

Imagens: Carol Cavalaris







terça-feira, 8 de julho de 2014

DÁ-ME UM LUGAR






Dá-me um lugar

um lugar onde possa reclinar a cabeça
um colo onde possa adormecer
e te saiba por perto

dá-me mãos inteiras de chuva
os lírios que a manhã me trouxe aos olhos
uma única razão para o dilúvio

e eu dar-te-ei um verso 
do tamanho de uma casa


José Rui Teixeira

Imagens: Igor V. Kapustin












sexta-feira, 27 de junho de 2014

NOS TEUS OLHOS ALGUÉM ANDA NO MAR






Nos teus olhos alguém anda no mar
alguém se afoga e grita por socorro
e és tu que vais ao fundo devagar
enquanto eu sobre ti eu quase morro.

E de repente voltas do abismo
e nos teus olhos há um choro riso
teu corpo agora é lava e fogo e sismo
de certo modo já não sou preciso.

Na tua pele toda a terra treme
alguém fala com Deus alguém flutua
há um corpo a navegar e um anjo ao leme.

Das tuas coxas pode ver-se a Lua
contigo o mar ondula e o vento geme
e há um espírito a nascer de seres tão nua.



Manuel Alegre

Imagens: Harun Mehmedinovic









segunda-feira, 16 de junho de 2014

SE EU E TU





Se eu fosse peixe e tu fosses mar
nadava por dentro de ti 
vivia do teu corpo.
Se eu fosse pássaro e tu fosses ar
cortava-te como uma flecha
sem nunca te magoar.
Se eu fosse sol e tu fosses neve
em rio te transformava
e havias de ver o mar.
Se eu fosse chuva e tu fosses terra
cresciam de um dia para o outro
as flores na tua pele.
Se eu fosse vento e tu fosses vela
levava-te a ver o mundo
por sobre as águas do mar.


João Pedro Mésseder

Imagens: Google









quarta-feira, 4 de junho de 2014









Já vi borboletas voarem faltando um pedaço da asa e rosas incríveis desabrocharem num copo de água. E é disso que me nutro para acreditar que a meteorologia nem sempre está certa e que dias cinzentos podem ser prefácios de noites com sol.

Marla de Queiroz

Imagem: Google






quarta-feira, 28 de maio de 2014

ASAS AFLITAS




asas aflitas

fase silenciosa
antes do amanhecer

( como demora o sol
quando se espera por ele)

asas aflitas o pressentem

( sou do bando dos pássaros
acordadores do sol)

desde sempre assim
( antiga sina)

eu espero por ele
ele espera por mim

- e a noite perpetua


Nydia Bonetti

Imagens: Alaya Gadeh




quinta-feira, 22 de maio de 2014

SILÊNCIO





(...) Minha vocação é o silêncio.
Foi meu pai que me explicou: tenho inclinação para não falar, um talento para apurar silêncios. Escrevo bem, silêncios, no plural. Sim, porque não há um único silêncio. 
E todo o silêncio é música em estado de gravidez.
Quando me viam, parado e recatado, no meu invisível recanto, eu não estava pasmado. Estava desempenhando, de alma e corpo ocupados: tecia os delicados fios com que se fabrica a quietude.
Eu era um afinador de silêncios. (...)




Mia Couto, in Jesusalém

Imagens Google




quinta-feira, 8 de maio de 2014

O TU E O EU NA PAISAGEM





Não é o restolhar do vento.
É  a tua lembrança
que se ergue em mim.

Não é a rosa do sol a esfolhar-se.
É a minha boca - sede e romã -
que sangra na tarde.

Não é a noite que desce.
É a sombra dos teus olhos
a fechar o horizonte.


Luísa Dacosta

Imagens Google