sexta-feira, 17 de junho de 2011

...AS METAMORFOSES



O perfume das flores
atrai as borboletas. E as borboletas dançam,
- uma dança suave, improvisada, lenta -
a tocar-me num afago de asas de anjo.
Voam... voam bem alto
e levam-me consigo para o além
onde as borboletas encasulam
e renascem para a vida.

Sinto em mim as metamorfoses
como se minhas fossem.

A natureza anoitece
envolta no perfume das flores.
O meu corpo estremece
enquanto uma lágrima redonda e doce
escorre pelo pensamento que adormece.

Maripa

Imagem da internet

quarta-feira, 8 de junho de 2011

O MAR E AS GAIVOTAS



A vida desenrola-se debaixo dos nossos pés e, às vezes, puxa-nos o tapete sem contarmos...

Chamada rápida para o 112, pré-diagnóstico feito com eficiência , transporte para as urgências dos HUC.

Fiz um enfarte.

Seguem-se os cuidados necessários na Unidade de Cuidados Intensivos e depois Intermédios.

Lentamente, ponho-me a pé outra vez. Testo o chão, o ar, os pulmões para confirmar que ainda respiro. Olho o céu...

Sinto o coração bater compassadamente, sem dor.

Desfaço fio a fio o novelo que tinha no estômago.

Não dramatizo.

A suavidade do Prelude de Bach suaviza o meu tempo

enquanto o mar e as gaivotas me esperam...


Maripa

Imagem de Ben Goossens


segunda-feira, 30 de maio de 2011

DE TANTO CHAMAMENTO


Caminho de encontro ao entardecer
com a língua salgada de incendiar
a paisagem de quantos verões
me couberam na boca.
A curva do meu riso indicia o sul da mágoa.
Tenho um barco tatuado nos ossos
e os braços, quase enfermos,
de tanto chamamento.
No próximo verão, hei-de vestir-me de branco,
para que os veleiros avistem a solidão do meu olhar.


Graça Pires

in "Uma certa forma de errância"

terça-feira, 24 de maio de 2011

SENTIMENTO(S)



talvez as palavras assumam sentidos que não pretendíamos
e lágrimas vertam do destino pensado.

talvez hajam momentos tristes que fazem as palavras pesadas
e o arquejar do corpo irrompa pleno.

talvez as esferas celestes estejam partidas.
talvez a vontade seja falaz.

talvez.

mas as palavras nunca serão apenas símbolos.

são o veludo,
onde se expressa a voz do coração !

Vicente Ferreira da Silva


quinta-feira, 19 de maio de 2011

PAZ




Hoje
quero
deitar a minha cabeça
no teu colo
peço
que a afagues.
Ensina-me
uma oração
que cure as dores da alma
e dá-me
somente um pouco
da tua paz
que não a quero toda.


Maria José Meireles



Imagem de Kim Nelson
a que juntei a palavra PAZ

terça-feira, 17 de maio de 2011

MUSEU MACHADO DE CASTRO



LOCALIZAÇÃO ASSINALADA DO MUSEU





MUSEU MACHADO DE CASTRO

Coimbra


Hoje é Dia Internacional dos Museus


Visite-o, quando puder. Não se vai arrepender.


sábado, 14 de maio de 2011

MÃOS



Mãos
Côncavas de ter
Longas de desejo
Frescas de abandono
Consumidas de espanto
Inquietas de tocar e não prender.


Sophia de Mello Breyner

Imagem da internet

sexta-feira, 13 de maio de 2011

ACORDEI





Hoje, confesso, acordei com vontade de ser feliz.
Amarrei, até, no pulso o amor-perfeito
que foi secando no meu peito e retomei a velha máxima:
não deixar que qualquer angústia atinja o coração.
Um castelo de areia é tudo quanto quero
para acostar o meu barco de papel.

Aproxima os olhos da vertigem e estremece
com a luz espessa que brilha nos teus ombros.
No céu do teu país, as estrelas podem ser barcos,
se quiseres sulcar os mares do coração em desordem.


Graça Pires

Imagem da internet



terça-feira, 10 de maio de 2011

UMA ROSA

Posted by Picasa

domingo, 8 de maio de 2011

COLAR DE PÉROLAS



procuro lágrimas a oriente.
em campos de turquesas!

e envio-tas nas correntes dos mares do universo azul.

ser-te-ão colocadas,
como um sussurro de estrelas ténues,
pelas águas suspensas nos céus da saudade.



Vicente Ferreira da Silva


Imagem de J. Nan

sexta-feira, 6 de maio de 2011

ANSIEDADE



Quero compor um poema
onde fremente
cante a vida
das florestas das águas e dos ventos

Que o meu canto seja
no meio do temporal
uma chicotada de vento
que estremeça as estrelas
desfaça mitos
e rasgue nevoeiros - escancarando sóis!


Manuel da Fonseca

in Poemas Dispersos

Imagem da internet

segunda-feira, 2 de maio de 2011

AS PAPOILAS SECAM-ME NOS OLHOS




Sem qualquer pudor, deixei a marca,
do meu andar apressado,
em todos os caminhos de esperas decisivas.
Algo envelheceu nos meus pés,
manchados pelo desacerto dos dias.
De tanto percorrer o chão da infância,
as minhas pálpebras encheram-se
da lucidez dos velhos.
Não creio que os dias se revezem,
inevitavelmente, iguais.
As papoilas secam-me nos olhos.
Sinal de sede ou de um verão antigo
inquietando a boca?



Graça Pires

De Uma certa forma de errância, 2003

Imagem da internet


sexta-feira, 29 de abril de 2011

ECOS



Ecos de ti, sob o canto dos grilos,
em campos de orvalho e de erva-doce
nas esteiras do milho onde dormimos

deixaste num rasto coisas não ditas
que o tempo fará remedeio
entre a vida e um eco, de permeio

ecos de ti, sob cores de Maio,
em estradas percorridas de centeio
nas bermas, e apenas, no meio
o calor de noites já vividas.

Lua nova e amores desabridos
que me aquecem os sentidos
em campos de orvalho e de milho
sob um cheiro d'erva-doce.



Leonor de Saint Maurice

Imagem da internet

domingo, 24 de abril de 2011

TAMBÉM O DESERTO VEM



Também o deserto vem
do mar. Não sei em que navio,
mas foi desses lugares
que chegaram ao meu jardim
as palmeiras.
Com o sol das areias
em cada folha,
na coroa o sopro
ainda húmido das estrelas.


Eugénio de Andrade


imagem da internet

sexta-feira, 22 de abril de 2011

CONFISSÃO




De um e outro lado do que sou,
da luz e da obscuridade,
do ouro e do pó,
ouço pedirem-me que escolha;
e deixe para trás a inquietação,
a dor,
um peso de não sei que ansiedade.

Mas levo comigo tudo
o que recuso. Sinto
colar-se-me às costas
um resto de noite;
e não sei voltar-me
para a frente, onde
amanhece.


Nuno Júdice

Imagem: Darren Waterston

segunda-feira, 18 de abril de 2011

APESAR DE




" Uma das coisas que aprendi é que se deve viver apesar de. Apesar de, se deve comer. Apesar de, se deve amar. Apesar de, se deve morrer. Inclusive muitas vezes é o próprio apesar de que nos empurra para a frente. Foi o apesar de que me deu uma angústia que insatisfeita foi a criadora da minha própria vida."


Clarice Lispector, in "Uma Aprendizagem ou o Livro dos Prazeres"



Imagem : net

terça-feira, 12 de abril de 2011

TÃO FUNDO O SILÊNCIO



É tão fundo o silêncio entre as estrelas.
Nem o som da palavra se propaga,
nem o canto das aves milagrosas.
Mas, lá, entre as estrelas, onde somos
um astro recriado, é que se ouve
o íntimo rubor que abre as rosas.



José Saramago

Imagem: Net

segunda-feira, 11 de abril de 2011

HÁ MUITO





Há muito que deixei aquela praia
De grandes areais e grandes vagas
Mas sou eu ainda quem na brisa respira
E é por mim que espera cintilando a maré vaza




Sophia de Mello Breyner

Imagem: Mário Silva

terça-feira, 5 de abril de 2011




[ ... ]

- E então não sei o que dizer
junto à taça de pedra do teu jovem silêncio.
Quando as crianças acordam nas luas espantadas
que às vezes se despenham no meio do tempo
- não sei como dizer-te que a pureza,
dentro de mim, te procura.

Durante a primavera inteira aprendo
os trevos, a água sobrenatural, o leve e abstracto
correr do espaço -
e penso que vou dizer algo cheio de razão,
mas quando a sombra cai da curva sôfrega
dos meus lábios, sinto que me faltam
um girassol, uma pedra, uma ave - qualquer
coisa extraordinária.
Porque não sei como dizer-te sem milagres
que dentro de mim é o sol, o fruto,
a criança, a água, o deus, o leite, a mãe,
o amor
que te procuram.




Herberto Helder
in
Poesia Toda



Imagem: Alloxa

quinta-feira, 31 de março de 2011



"Há aqueles que não podem imaginar um mundo sem pássaros; há aqueles que não podem imaginar um mundo sem água; ao que me refere, sou incapaz de imaginar um mundo sem livros."






Jorge Luís Borges

Imagem: Net

sábado, 26 de março de 2011

AJUDA-ME



Ajuda-me. Este cansaço pesa nas palavras e eu não digo mais o sabor da alegria, o riso da manhã, o poder da montanha, o murmúrio das marés, o crepitar do amor em nossas mãos. Ajuda-me. A inclinação das ruas tornou-se insuportável e eu preciso subi-las para abraçar a memória da pele das rosas, do veludo do café, do abrigo das madeiras. Eu sei, as andorinhas voltarão ao recorte do telhado, o plátano será mais uma vez a capa do meu verão, saberei ainda adivinhar os barcos na transparência das casas, soltarei o riso na indecisão dos nevoeiros, na adolescência dos peixes vermelhos. Quero trepar a escada dos sonhos adiados, das promessas de pão, do brilho do oiro, da luz una e dividida, da paz, da paz. Não me deixa este cansaço de mil vidas no meu peito. Ajuda-me. Eu espero.



Licínia Quitério

Imagem : F. Rivera

quarta-feira, 16 de março de 2011

UM RECOMEÇO?



Um recomeço?
Um arremesso de vontade
ou de saudade de palavras azuis
que me aqueçam?
Hoje habita-me o mar de Sophia.
Vou deixá-lo lavar-me e levar-me para lugares
onde pensamentos sem névoas floresçam.

Vou deixar que as minhas mãos se vistam
de primaveras brancas
e os olhos dancem ao ritmo das marés.

Ter o mar em mim - mesmo que breve -
dá-me vontade de ser barco.

Deixa-me leve...
Hoje.

Maripa

Imagem: Alloxa



sábado, 10 de abril de 2010

É MAIS FÁCIL PARTIR



É mais fácil partir quando o silêncio
transpõe a tua voz.
Mais simples celebrar a tão efémera
certeza de estares vivo.

A música do ar esvai-se nas sombras,
tu sabes que é assim,
que os dias correm céleres, não tentes
perseguir o seu rasto - repara
como em Abril as aves são felizes.

Sê como elas: não perguntes nada,
deixa que o sol responda à flor da tarde
e esquece-te do mundo.


Fernando Pinto do Amaral

Imagem: Alloxa

quinta-feira, 1 de abril de 2010

PÁSCOA FELIZ



Santa, feliz e doce PÁSCOA, com muito amor, paz e saúde.


... e o abraço amigo da Maripa.

quarta-feira, 24 de março de 2010

ABERTAS EM LEQUE




Abertas em leque as cores da primavera

semeiam palavras em folhas abertas em branco.



Abertas em leque corolas exangues
despem pudores abertos em madrugadas de canto.



Nas asas abertas das andorinhas nascem flores
quando o silêncio é liso e mais azul
e o sol no alto, aberto, uma bola de espanto.




Maripa


Imagem: Vera Sharan

quarta-feira, 17 de março de 2010

COUSAS DO MAR




Corpo de nuvem que, do mar saída,
volvida em chuva para o mar voltou,
quem te arrancou de mim? Quem te deu vida,
corpo que do meu corpo se arrancou?


Já foste, não sei quando despedida.
Quem para mim de novo te arrastou?
E quem te esparge em vozes diluída,
corpo de nuvem neste mar que sou?


Mas a carne que escorre de repente
da bátega dos sons é tão ardente
que de repente o próprio mar flutua,


sobre si mesmo volve e ao céu ascende
- pois só no céu, no céu é que se prende
o vulto de uma nívea nuvem nua!


David Mourão-Ferreira


Imagem: Pedro Ramalho

sábado, 13 de março de 2010

TALVEZ HOJE




Hoje vi o sol como se fôsse a primeira vez.
Deslumbrou-me a claridade, a alegria
sem mágoas nem águas nem pressa de me deixar.


Talvez... talvez hoje fôsse hora de pôr a alma
encharcada, a cheirar a mofo, a corar.
Hora de pôr aquele chapéu de aba larga
e brincos de cerejas maduras.
Hora de percorrer a alameda das tílias ainda sem flor,
adivinhar-lhes o perfume a aromar memórias abrigo
de outros tempos, de outros lugares.
Hora de com todos os vagares ver as sombras
se vestirem de primaveras e ternuras.


Talvez...talvez hoje o sol fique comigo.

Maripa


Imagem da internet

segunda-feira, 8 de março de 2010

MULHER


Mulher fome mulher pão
mulher fogo mulher gelo
mulher cabeça e coração.

Mulher guerra mulher paz
mulher mentira e verdade
mulher anjo e satanás.

Mulher sol mulher luar
mulher escrava e rainha
mulher terra mulher mar.

Mulher amor mulher abrigo mulher âncora
plena de graça e [de]lírios asas de mulher menina

Maripa


Imagem: Amy Sol

sábado, 6 de março de 2010

PRELUDE & NOSTALGIA - YANNI



"Não seria a música uma língua perdida, da qual perdemos o sentido e conservamos apenas a harmonia?"


Massimo Azeglio

segunda-feira, 1 de março de 2010

NATUREZA MORTA



O livro aberto, esquecido, sobre a mesa
olha as rosas esquecidas numa jarra.
Dói-lhe ver as pétalas a cair ao desamparo...
É raro estar atento, mas hoje vive o som
e a arritmia de notas soltas [meio confusas]
do piano desafinado ,mesmo ali, na sala ao lado.
E com a janela semi-aberta
consegue ver a lua bem desperta a transbordar
de fantasmas vestidos com lençóis de luar.

O pingar de um chapéu de chuva junto à porta
diz-lhe que a tela que desenhou
nada tem de natureza morta.


Maripa

Imagem: I. Anton