sábado, 2 de novembro de 2013

DESNECESSÁRIA EXPLICAÇÃO





Que importa a melodia,
se acaso aos outros dou,
com pávida alegria,
o pouco que me sou?

Que importa ao que me sabe
estar só no meu caminho, 
se dentro de mim cabe
a glória de ir sozinho?

Que importa a vã ternura
das horas magoadas,
se ao meu redor perdura
o eco das passadas?

Que importa a solidão
e o não saber onde ir,
se tudo, ao coração,
nos fala de partir?

Daniel Filipe

Imagens Net






quarta-feira, 30 de outubro de 2013

PALAVRAS LÍQUIDAS







É tão difícil guardar um rio
sobretudo quando ele corre
dentro de nós...

Jorge de Sousa Braga

Imagens: Mark Mawson









sábado, 26 de outubro de 2013

CHEGAM DO MAR





Chegam do mar ecos de sons musicais
- quais lamentos tristes e dolentes -
que se apoderam da inquietude da noite
saturada de sombras, luar e  água.

As gaivotas, pressentidos os sinais
da turbulência das marés,
faz tempo que fizeram poiso
em longínquos poentes.

Dentro de mim 
há janelas embaciadas
a refletir imagens turvas. 
Dentro de mim
o pen[s]ar é  infinito
e pretérito imperfeito
de tantas arritmias desequilibradas.


Mas sei que os sons 
que chegam do mar
me vão humedecendo a alma
me vão acalmando os ventos
me vão fazer evadir 
e talvez regressar.

Talvez... 


Maripa

Imagens: Google




quinta-feira, 24 de outubro de 2013

AMANHÃ...






Amanhã...

Pode ser que o tempo passe
e não me guarde o sorriso pronto,
o olhar aceso, a palavra mansa.

É que às vezes é tudo tão longe
que até a persistência da ilusão se cansa.


Helena Chiarello

Imagens: Google




segunda-feira, 21 de outubro de 2013

MELODIA





Este é o orvalho dos teus olhos.
Esta é a rosa dos teus vales.
O silêncio dos olhos está no silêncio das rosas.
Tu estás no meio,
entre a dor e o espanto da treva.
Arrancas-te ao mundo e és a perfumada
distância do mundo.
Chego sem saber, à beira dos séculos.
Despenho-me nos teus lagos quando para ti
canta o cisne mais triste.
O pólen esvoaça no meu peito, junto às tuas
nuvens.
Esta é a canção do teu amor.
Esta é a voz onde vive a tua canção.
As tuas lágrimas passam pela minha terra 
a caminho do mar.


José Agostinho Baptista

Imagens : Google








quinta-feira, 17 de outubro de 2013

IDENTIDADE






Preciso ser um outro
para ser eu mesmo

Sou grão de rocha
Sou o vento que a desgasta

Sou pólen sem insecto

Sou areia sustentando
o sexo das árvores

Existo onde me desconheço
aguardando pelo meu passado
ansiando a esperança do futuro

No mundo que combato morro
no mundo por que luto nasço



Mia Couto [vencedor do Prémio Camões 2013]

Imagens: Google 



 

sábado, 12 de outubro de 2013

HÁ UMA VOZ A CHAMAR POR MIM







Há uma voz dentro das sombras da noite
a chamar por mim.
Uma voz a atravessar o silêncio
e a sussurrar repetidamente
uma frase, uma pequena frase
densa e subtil.

Desencantadamente
ouço a maré negra das palavras
que ondulam roucas e sem brilho.

Já perdi a memória aos dias brancos.

Agora, seguro o instante junto ao peito.
O instante intemporal é quase,
quase sempre [im]perfeito.

No turbilhão dos instantes, sonho...

Sonho
que enquanto das nuvens se desprendem
chuvas de corações, de rosas, 
de pássaros azuis, 
eu,
com o vagar dos sem tempo,
amontoo, pedra sobre pedra, 
os sentires e os sabores 
da passagem até ao instante final.

Já não sei onde estou...perdi-me de mim.

Se me encontrar
vou erguer uma cabana
no alto da minha pequenez
para poder enxergar o mar...

Maripa

Imagens: Paul David Bond









quinta-feira, 10 de outubro de 2013

A LEITORA



Imagem: Google


A leitora abre o espaço num sopro subtil.
Lê na violência e espanto da brancura.
Principia apaixonada de surpresa em surpresa.
Ilumina e inunda e dissemina de arco em arco.
Ela fala com as pedras do livro, com as sílabas da sombra.

Ela adere à matéria porosa, à madeira do vento.
Desce pelos bosques como uma menina descalça.
Aproxima-se das praias onde o corpo se eleva.
em chama de água. Na imaculada superfície
ou na espessura latejante, despe-se das formas,

branca no ar. É um torvelinho harmonioso,
um pássaro suspenso. A terra ergue-se inteira
na sede obscura de palavras verticais.
A água move-se até ao seu princípio puro.
O poema é um arbusto que não cessa de tremer.


António Ramos Rosa




Imagem: Gerry Sibell


sábado, 5 de outubro de 2013

SOMOS FOLHAS BREVES






Somos folhas breves onde dormem
aves de silêncio e solidão.

Somos só folhas ou o seu rumor.
Inseguros, incapazes de ser flor,
até a brisa nos perturba e faz tremer.

Por isso a cada gesto que fazemos
cada ave se transforma noutro ser.



Eugénio de Andrade

Imagens: Google







quarta-feira, 2 de outubro de 2013

QUANDO EU MORRER




Quando eu morrer
não me dêem rosas
mas ventos.

Quero as ânsias do mar
quero beber a espuma branca
duma onda a quebrar
e vogar.

Ah, a rosa dos ventos
a correrem na ponta dos meus dedos
a correrem, a correrem sem parar.
Onda sobre onda infinita como o mar
como o mar inquieto
num jeito
de nunca mais parar.

Por isso eu quero o mar.
Morrer, ficar quieto,
não.
Oh, sentir sempre no peito
o tumulto do mundo
da vida e de mim.

E eu e o mundo.
E a vida. Oh mar
o meu coração
fica para ti.
Para ter a ilusão
de nunca mais parar.


Alexandre Dáskalos

Imagens: Google










terça-feira, 1 de outubro de 2013

TOCO A FONTE


Imagem de Martine Anis-Aubin




Toco a fonte
como um vento que separa as flores secas
das raízes humildes dos últimos
jardins - como as lágrimas felizes
bebo o teu perfume, minha promessa
de vinho. Procuro nos caminhos secretos
o fim do luto, o silêncio dos abismos tranquilos
onde a sombra do lago é uma metáfora
esquecida. Entro
na ardência oculta
saboreando a migração das noites brancas.
O meu sangue converte-se em laranja.
E tu, meu amor, o que esperas tu
do navegador das trevas?


Casimiro de Brito



Imagem: Google

domingo, 29 de setembro de 2013

ESPERA-ME





Espera-me. Não vás muito depressa que já não consigo acertar o meu passo com o teu. Sabes, por trás daqueles muros altos, aqueles onde as heras fazem ninho, moram muitos segredos. Em tempos idos fui a princesa daquele sítio, o sítio do poema. Não cresciam por lá ervas daninhas e nem sequer às sombras era permitida entrada.
Dá-me a tua mão, sente como a minha está fria. Noutros outonos ainda as sentirias quentes e macias, mas o tempo que enferruja os portões não se compadece. Até as flores que davam vida aos canteiros estão a secar. Tudo vai renascer! Não, não entristeças, tudo tem o seu tempo. Olha a beleza das folhas das árvores, não te parecem pássaros a voar quando começa a ventar? E o brilho da chuva no empedrado da calçada? Quando eu era a princesa dos pés descalços gostava de sentir a relva molhada... e se havia brincos-de-princesa a resistir nos canteiros eu enfeitava-me vaidosa e virava o rosto ao céu para me deixar regar. Tinha vezes que até o arco-íris comparecia para me abençoar. Grata, toda eu resplandecia de inocentes prazeres!

Esquece. Eu aqui no meu inverno a relembrar primaveras... Agora é olhar em frente e esperar que o finito dos outonos aconteça. 

Espera-me.


Maripa

Imagens: Google



sábado, 28 de setembro de 2013

dá-me um lugar





dá-me um lugar onde possa reclinar a cabeça
um colo onde possa adormecer
e te saiba por perto

dá-me mãos inteiras de chuva
os lírios que a manhã me trouxe aos olhos
uma única razão para o dilúvio

e eu dar-te-ei um verso
do tamanho de uma casa



José Rui Teixeira

Imagens: Paul David Bond








segunda-feira, 23 de setembro de 2013

VIRAÇÃO






E se então a palavra
fosse apenas sopro
a vertigem tomaria conta
de tudo o que haveria para sorrir
e adormeceríamos aqueles dias
de áridas estações
e dos nossos olhos de contentamento
brotariam ternuras
             delírios
                         outras borboletas
e pelas frestas [da insanidade] do tempo
ventariam outonos lilases...



Helena Chiarello  [ revellar.blogspot.pt]

Imagens: Google







quarta-feira, 18 de setembro de 2013

DEIXA A ANGÚSTIA VOAR...




Deixa a angústia ser levada pelo vento.

Ao ser arrastada pelos ares
desintegrar-se-á lentamente.
As dores, ansiedades, os vazios
de todas as cores e cambiantes
serão gotas de chuva a cair nos mares.

Na madrugada nebulosa
ouve e abraça o sussurro
do amanhecer das flores.
Escuta o riso que mora
no silêncio da memória
e sente o gargalhar nascido
entre o beijo e o desejo.

Não esqueças a flor e o perfume
do amor que sempre repartiste
de coração em coração.

Deixa a angústia voar...
E sente o pulsar da vida
que ainda chama por ti.

Maripa

Imagens de Kitkat Pecson




terça-feira, 10 de setembro de 2013

SOLITUDE




Às vezes ela cansava. Ficava exausta de fazer parte. Gostava, quase sempre mais, quando estava só. Tinha uns momentos de solidão estelar, aquela solidão do não pertencer, do não compreender, em que tudo ficava no lugar.

Gostava do mundo físico. Gostava das paisagens, intimistas ou imensidões... Gostava das cores ora suaves, vezes vibrantes, ternas, agitadas. Gostava em especial dos aromas. Gostada deles por serem assim voláteis, estarem aqui por um segundo e depois não serem mais percebidos e ainda assim permanecerem na memória para sempre. Adorava os clichês básicos: sol na pele, chuva no rosto, vento no cabelo, terra nos pés. E o aconchego do fogo.

Amava pessoas. Gostava de observar suas nuances, suas emoções em eterno movimento. Tinha especial apreço pelas histórias que construíam com seus passos. Sentia-se bem entre pessoas, mas cansava-a a humanidade. Esgotava-se em padrões e conceitos. Ficava claustrofóbica e muitas vezes chegava mesmo a ter medo. De ceder. De igualar. De participar.

Gostava de ser assim, à parte. Estrela sem constelação.



Cláudia Barros  
[ escrivinhadeira.blogspot.com ]

Imagens: Google




segunda-feira, 2 de setembro de 2013

NO MEIO DO DIA





No  meio do dia,
quando dou conta
do longo caminho percorrido,
pergunto-me
se algumas lâmpadas, 
daquelas que deixei acesas,
                         ainda serão farol
no espalhar de sombras
                         e incertezas.

Para trás vão ficando
gestos,  olhares, outros matizes,
que não sei se são compreendidos
                          ou menos felizes...

Deixo emoções, palavras, esperanças,
flores secas semeadas pelo livro
                        que teimo em reler
na doçura breve de mais um dia
                         apegado a lembranças.

Algumas boas, outras nem tanto
e talvez um segredo secreto...
As saudades imensas do nosso mar,
dos banhos salgados
                que não posso
                      nem quero esquecer!

Maripa

Imagens: Google





quinta-feira, 29 de agosto de 2013


Pintura de Paul Wolber




Fora existe o mundo. Fora, a esplêndida violência ou os bagos de uva de onde nascem as raízes minúsculas do sol. Fora, os corpos inalteráveis do nosso amor, os rios, a grande paz exterior das coisas, as folhas dormindo o silêncio, as sementes à beira do vento, - a hora teatral da posse. E o poema cresce tomando tudo em seu regaço.


Herberto Helder




Pintura de Vladimir Volegov

terça-feira, 27 de agosto de 2013

A TODOS E A CADA UM DOS MEUS AMIGOS




Por um       por todos       por nenhum
faço o meu canto        canto a minha mágoa
num desencanto aberto pelo gume
deste pranto tão limpo como a água.

Por nenhum        por todos ou por um
eu dou o meu poema        o meu tecido
de palavras gravadas com o lume
do medo que na voz trago vencido.

Por nenhum          por um          mesmo por todos
sou a bala e o vinho          sou o mesmo
que pisa as uvas          os versos e o lodo
num chão onde a coragem nasce a esmo.


Joaquim Pessoa

Imagens: Google





segunda-feira, 19 de agosto de 2013

OLHE BEM...







Olhe bem...será que a conhece ou terá apenas a impressão que já a viu em qualquer lugar? 

Não afaste o seu olhar do seu rosto durante uns momentos [olhe bem] talvez ela o olhe e possa tirar as suas dúvidas. Talvez a tivesse conhecido, quem sabe? 

Talvez me possa dizer quem é esta senhora de olhar misterioso, meio triste, mas ao mesmo tempo sereno.

Que memórias ou pensamentos a acompanham na solidão que aparenta?

Ou estará à espera de alguém que prometeu vir e tarda em chegar?







quinta-feira, 15 de agosto de 2013

CREPUSCULAR





A incerteza cai com a tarde
no limite da praia. Um pássaro
apanhou-a, como se fosse
um peixe, e sobrevoa as dunas
levando-a no bico. O
seu desenho é nítido, sem
as sombras da dúvida ou
as manchas indecisas da 
angústia.Termina com a
interrogação, os traços do fim,
o recorte branco de ondas
na maré baixa. Subo a estrofe
até apanhar esse pássaro
com o verso, prendo-o à frase, 
para que as suas asas deixem
de bater e o bico se abra. Então,
a incerteza cai-me na página, e
arrasta-se pelo poema, até
me escorrer pelos dedos para
dentro da própria alma.

Nuno Júdice

Imagens: Google