sábado, 2 de agosto de 2014

MAR DE AGOSTO






Deixa ficar comigo a madrugada,
para que a luz do Sol me não constranja.
Numa taça de sombra estilhaçada, 
deita sumo de lua e de laranja.

Arranja uma pianola, um disco, um posto,
onde eu ouça o estertor de uma gaivota...
Crepite, em derredor, o mar de Agosto...
E o outro cheiro, o teu , à minha volta!

Depois, podes partir. Só te aconselho
que acendas, para tudo ser perfeito,
à cabeceira a luz do teu joelho,
entre os lençóis o lume do teu peito...

Podes partir. De nada mais preciso
para a minha ilusão do Paraíso.


David Mourão-Ferreira

Imagens GOOGLE







sábado, 26 de julho de 2014

SONETO DO AMOR E DA MORTE







quando eu morrer murmura esta canção
que escrevo para ti. quando eu morrer
fica junto de mim, não queiras ver
as aves pardas do anoitecer
a revoar na minha solidão.

quando eu morrer segura a minha mão,
põe os olhos nos meus se puder ser,
se inda neles a luz esmorecer
e diz do nosso amor como se não

tivesse de acabar, sempre a doer,
sempre a doer de tanta perfeição
que ao deixar de bater-me o coração
fique por nós o teu inda a bater,
quando eu morrer segura a minha mão.


Vasco Graça Moura

Imagens GOOGLE






terça-feira, 22 de julho de 2014

DEIXEM-ME SONHAR


Andrei Belichenko




Deixem-me sonhar, à procura
dos sinais ocultos do caminho.
É nas asas do sonho que a loucura
faz o ninho.

Deixem-me ser livre como o vento
sem rumo nem compromisso.
O sonho é o lugar do pensamento
insubmisso.

António Arnaut




sábado, 19 de julho de 2014

GALGO NUM OLHAR O VERDE QUE SE ESTENDE





galgo num olhar o verde que se estende
lentamente
e veloz recuo no tempo
galgando os tempos da minha infância

sorvo o doce profundo da natureza
imanente
no hálito fresco e húmido da manhã

gotas de orvalho cintilam
como lágrimas
num rosto de inefável beleza

a paisagem palpita
de luz, cores, odores, sons
- em tropel as sensações

fecho os olhos - a volúpia antiga:
tudo retenho
pintado 
numa tela de retina

algo se funde em mim


Teresa Souto

Imagens: Carol Cavalaris







terça-feira, 8 de julho de 2014

DÁ-ME UM LUGAR






Dá-me um lugar

um lugar onde possa reclinar a cabeça
um colo onde possa adormecer
e te saiba por perto

dá-me mãos inteiras de chuva
os lírios que a manhã me trouxe aos olhos
uma única razão para o dilúvio

e eu dar-te-ei um verso 
do tamanho de uma casa


José Rui Teixeira

Imagens: Igor V. Kapustin












sexta-feira, 27 de junho de 2014

NOS TEUS OLHOS ALGUÉM ANDA NO MAR






Nos teus olhos alguém anda no mar
alguém se afoga e grita por socorro
e és tu que vais ao fundo devagar
enquanto eu sobre ti eu quase morro.

E de repente voltas do abismo
e nos teus olhos há um choro riso
teu corpo agora é lava e fogo e sismo
de certo modo já não sou preciso.

Na tua pele toda a terra treme
alguém fala com Deus alguém flutua
há um corpo a navegar e um anjo ao leme.

Das tuas coxas pode ver-se a Lua
contigo o mar ondula e o vento geme
e há um espírito a nascer de seres tão nua.



Manuel Alegre

Imagens: Harun Mehmedinovic









segunda-feira, 16 de junho de 2014

SE EU E TU





Se eu fosse peixe e tu fosses mar
nadava por dentro de ti 
e vivia do teu corpo.
Se eu fosse pássaro e tu fosses ar
cortava-te como uma flecha
sem nunca te magoar.
Se eu fosse sol e tu fosses neve
em rio te transformava
e havias de ver o mar.
Se eu fosse chuva e tu fosses terra
cresciam de um dia para o outro
as flores na tua pele.
Se eu fosse vento e tu fosses vela
levava-te a ver o mundo
por sobre as águas do mar.


João Pedro Mésseder

Imagens: Google









quarta-feira, 4 de junho de 2014









Já vi borboletas voarem faltando um pedaço da asa e rosas incríveis desabrocharem num copo de água. E é disso que me nutro para acreditar que a meteorologia nem sempre está certa e que dias cinzentos podem ser prefácios de noites com sol.

Marla de Queiroz

Imagem: Google






quarta-feira, 28 de maio de 2014

ASAS AFLITAS




asas aflitas

fase silenciosa
antes do amanhecer

( como demora o sol
quando se espera por ele)

asas aflitas o pressentem

( sou do bando dos pássaros
acordadores do sol)

desde sempre assim
( antiga sina)

eu espero por ele
ele espera por mim

- e a noite perpetua


Nydia Bonetti

Imagens: Alaya Gadeh




quinta-feira, 22 de maio de 2014

SILÊNCIO





(...) Minha vocação é o silêncio.
Foi meu pai que me explicou: tenho inclinação para não falar, um talento para apurar silêncios. Escrevo bem, silêncios, no plural. Sim, porque não há um único silêncio. 
E todo o silêncio é música em estado de gravidez.
Quando me viam, parado e recatado, no meu invisível recanto, eu não estava pasmado. Estava desempenhando, de alma e corpo ocupados: tecia os delicados fios com que se fabrica a quietude.
Eu era um afinador de silêncios. (...)




Mia Couto, in Jesusalém

Imagens Google




quinta-feira, 8 de maio de 2014

O TU E O EU NA PAISAGEM





Não é o restolhar do vento.
É  a tua lembrança
que se ergue em mim.

Não é a rosa do sol a esfolhar-se.
É a minha boca - sede e romã -
que sangra na tarde.

Não é a noite que desce.
É a sombra dos teus olhos
a fechar o horizonte.


Luísa Dacosta

Imagens Google







sábado, 3 de maio de 2014

AMAVISSE


Chelin Sanjuan





Como se te perdesse, assim te quero.
Como se não te visse ( favas douradas
Sob um amarelo) assim te apreendo brusco
Inamovível, e te respiro inteiro.

Um arco-íris de ar em águas profundas.

Como se tudo mais me permitisses,
A mim me fotografo nuns portões de ferro
Ocres, altos, e eu mesma diluída e mínima
no dissoluto de toda a despedida.
Como se te perdesses nos trens, nas estações
Ou contornando um círculo de águas
Removente ave, assim te somo a mim:
De redes e de anseios inundada.

Hilda Hilst










quinta-feira, 1 de maio de 2014

HOUVE UMA ILHA EM TI QUE EU CONQUISTEI







Houve uma ilha em ti que eu conquistei.
Uma ilha num mar de solidão.
Tinha um nome a ilha onde morei.
Chamava-se essa ilha Coração.

Que saudades do tempo que passei.
Nenhum desses momentos foi em vão.
Do teu corpo, de ti, já nada sei.
Também não sei da ilha, não sei não.

Só sei de mim, coberto de raízes.
Enterrei os momentos mais felizes.
Vivo agora na sombra a recordar.

A ilha que eu amei já não existe.
Agora amo o céu quando estou triste
por não saber do coração do mar.

Joaquim Pessoa

Imagens Google








sexta-feira, 25 de abril de 2014

EM CADA SÍLABA TE ESCREVO





Em cada sílaba te escrevo,
porque há ventos que amam
a praia e as nossas asas
teimam em voltar galopantes
de onde nunca partiram.
Toco a areia e não me sinto só;
as rendas das ondas
enfeitam-me os cabelos,
prolongam as algas.
Sou água, areia, tu o búzio das marés.
Sabes, adivinhas,
escutas, silencias.
Por isso o nosso toque
não é breve nem sem gosto,
por isso há rios que
se abrem apenas
porque os momentos
se prolongam e entardecem os corpos.

Lília Tavares

Imagens Google



sábado, 12 de abril de 2014

o ponto certo do silêncio


Hester van Doornum




o ponto certo do silêncio

há silêncios que sonham ser casas
e há palavras-pássaros-pequenos
caídas dos ninhos antes das asas

depois há o mar onde buscamos
um som
que nos habite o olhar
quando o coração é seda desfiada

pelo tempo 
tardio
de um lamento

e quando já nada volta atrás
percebemos que
por vezes
é difícil encontrar
o ponto certo do silêncio


Rosário Alves


terça-feira, 8 de abril de 2014

... E SEMPRE A CULPA




... e sempre a culpa


Era a mágoa dobrada ao seu destino.
Era o lençol de pranto e emoção
a crescer , a crescer em desatino.
e a culpa, a cirandar devagarinho,
a germinar no húmus da razão.

E no meu céu não houve mais azul...
E no meu chão nenhuma flor nasceu.
Perdi o rasto à asa em rota sul.
Perdi-me nas escarpas do meu eu.

E a culpa
... e sempre a culpa
               a remoer, sem fim.
E o choro...
... e sempre o choro
               a chuvinhar em mim.


M.L. Mercês de Mello

Imagens Google






sexta-feira, 4 de abril de 2014

os dias iguais



Olga Kulyashova




os dias iguais são ensaios 
de eternidades

todos os dias são um só
dia

as dores: memórias 
esquecidas

as alegrias

o canto tardio
do pássaro cego

os lírios

tudo
como num grande e fugaz

delírio



Nydia Bonetti












segunda-feira, 31 de março de 2014

PALAVRAS DE ÁGUA







No espreguiçar da noite
por entre silêncios e pensares
não encontro sossego
                       no desassossego.

Por entre as pedras do rio de lamento e revolta
há palavras de água a cair insubmissas
                                                          para o abismo.

Porque preso aos elos da corrente da realidade
                        há o abril dos cravos e dos cardos
                o abril de olhos baixos e braços caídos.

E na procura do retorno às coisas simples,
                                                      de coração aberto
ao espanto das mãos sedentas de um novo devir
                                              [há de chegar o tempo
da primavera renovar a cor da liberdade

e da palavra florescer em tons de arco-íris.


Maripa

Imagens google







quarta-feira, 26 de março de 2014

SE FOR POSSÍVEL, MANDA-ME DIZER






Se for possível, manda-me dizer:
- É lua cheia. A casa está vazia -
Manda-me dizer. E o paraíso
Há-de ficar mais perto e mais recente
Me há-de parecer teu rosto incerto.
Manda-me dizer se tens o dia
Tão longo como a noite. Se é
Que sem mim só vês monotonia.
E se te lembras do brilho das marés
De alguns peixes rosados
Numas águas
E dos meus pés molhados, manda-me dizer:
- É lua nova -
E revestida de luz te volto a ver.


Hilda Hilst

Imagens Google





terça-feira, 25 de março de 2014

ANTES


Chelin Sanjuan



Antes que desça a noite,
imprimir na retina
               os rostos amados,
                                o sol
               as cores,
o céu de outono
e os jardins da primavera.

Inundar de sons
               de vozes
e de música eterna
                 os ouvidos
antes que os atinja
            a maré do silêncio.

Conquistar
os pontos culminantes
                              da vida,
         antes que se esgote
         o prazo de permanência
em seu território sagrado.


Helena Kolody







Chelin Sanjuan