domingo, 20 de março de 2016

NO RENASCER DA PRIMAVERA






No renascer da primavera
traz-me uma flor [só uma]. Uma flor
de silêncio branco diluído na tarde.

Traz ainda um fio de água fresca
para serenar a sede que em mim arde.

E se conseguires, amor,
traz contigo o canto das amendoeiras.
Assim, quando embalarmos o anoitecer
e enaltecermos o seu alarde,
poderemos , no baloiço,
adormecer.


Maripa

Imagens: GOOGLE







terça-feira, 8 de março de 2016

MULHER TODOS OS DIAS






Mulher todos os dias
E até no mês de Março!
Eu, tu, nós,
Minha Filha
Minha Mãe
Minhas Avós,
Mulheres desembaraço!
Mulheres raiva
Mulheres ternura
Mulheres prazer
E bem querer!
Mulheres sofridas
Mulheres cansaço!
Mulheres coragem
Ou doloridas,
Mulheres credoras
Sem data,
Dum sorriso
E dum abraço!


Não há um dia fixo para te sentires mulher! 
(...)



Marta Brinca in Diário das Beiras

Imagens: Jennifer Healy








quinta-feira, 18 de fevereiro de 2016

TER ASAS






Ter asas de pássaro madrugador,
flutuar mais do que as nuvens
no íntimo dos azuis da imensidão,
é sonho.

Ter lágrimas de chuva maior
sentir o gotejar silencioso
no âmago trémulo de agitação,
é choro.

Choro murmurado, 
porque muito de mim é água,
mar longínquo, manhã de vento, 
saudade, desassossego e mágoa.


Maripa

Imagens Google







quarta-feira, 3 de fevereiro de 2016

CORRESPONDÊNCIA AO MAR





Quando penso no mar
A linha do horizonte é um fio de asas
E o corpo das águas é luar,

De puro esforço, as velas são memória
E o porto e as casas
Uma ruga de areia transitória.

Sinto a terra na força dos meus pulsos:
O mais é mar, que o remo indica,
E o bombeado do céu cheio de astros avulsos.

Eu, ali, uma coisa imaginada
Que o Eterno pica,
Vou na onda, de tempo carregada,

E desenrolo...
Sou movimento e terra delineada,
Impulso e sal, de pólo a pólo.

Quando penso no mar, o mar regressa
A certa forma que só teve em mim -
Que onde acaba, o coração começa.

Começa pelo aro das estrelas
A compasso retido em mente pura
E avivado nos vidros das janelas.

Começa pelo peito das baías
A rosar-se e crescer na madrugada
Que lhe passa ao de leve as orlas frias.

E, de assim começar, é abstracto e imenso:
Frio como a evidência ponderada.
Quente como uma lágrima num lenço.

Coração começado pelos peixes,
És o golfo de todo o esquecimento
Na minha lembrança que me deixes,

E a rosa dos ventos baralhada:
Meu coração, lágrima inchada,
Mais de metade pensamento.



Vitorino Nemésio, O Bicho Harmonioso, Coimbra, 1938

Imagens: GOOGLE







segunda-feira, 25 de janeiro de 2016

" O ABRAÇO..."



"Diz-se que o nosso corpo tem a forma de um abraço.Talvez por isso a tarefa de abraçar seja tão simples, mesmo quando temos de percorrer um longo caminho.  (...) Os abraços são a arquitetura íntima da vida, o seu desenho invisível, mas absolutamente presente; são plenitude consentida ao desejo e memória que revitaliza. Todos nos reconhecemos aí:em abraços quotidianos e extraordinários, abraços dramáticos ou transparentes, abraços alagados de lágrimas ou em puro júbilo, abraços de próximos ou de distantes, abraços fraternos ou enamorados, abraços repetidos ou, porventura, naquele único e idealizado abraço que nunca chegou a acontecer mas a que voltamos interiormente vezes sem conta.
No princípio era o abraço, se pensarmos no colo que nos nutriu na primeira infância. Essa foi , para a maioria de nós, a primeira e reconfortante forma de comunicação. Mas a necessidade de um abraço acompanha a nossa existência até ao fim. O abraço é uma longa conversa que acontece sem palavras. Tudo o que tem de ser dito soletra-se no silêncio, e ocorre isto que é tão precioso e afinal tão raro: sem defesas, um coração coloca-se à escuta de outro coração.  (...)"


José Tolentino Mendonça 

 Excerto da crónica do J.Expresso " Que coisas são as nuvens"

Imagens:Google








quarta-feira, 6 de janeiro de 2016

DE DENTRO







Há uma noite dentro da noite,
dentro de mim, dentro do peito.
Há um grito dentro do silêncio
que engole a noite dentro de mim.
Há um gigante dentro dos olhos,
dentro da boca, dentro das palavras.
Há um segredo dentro das mãos
que tecem a noite dentro do poema.
Há um poema a morrer de escuridão
dentro do poema, dentro do fogo.
Há um deserto a florir de dentro.


Ruth Ministro
Imagens : GOOGLE









sábado, 2 de janeiro de 2016

AMANHECER SEM SOMBRAS





Com os olhos fitos lá longe
vejo pessoas envoltas em nevoeiro.
Enleadas umas nas outras evocam 
momentos de um tempo que se foi.
Deixaram de ter cor, mas são seres-raízes
que me prendem à terra e mesmo sem voz
me conduzem a dias que foram felizes.

Estendo os braços,
procuro tocar-lhe os rostos pálidos,
mas há dor no silêncio de tantas luas.

Sustenho o grito sufocado na garganta.
Há pontes a impedir o toque, os abraços,
entraves a isolar as minhas mãos tão nuas.

Deambulo sem pressa de chegar a algum lugar.

Poderei amanhecer sem sombras,
onde quer que seja o meu refúgio,
se uma gaivota me mostrar o mar?


Maripa

Imagens: GOOGLE





quinta-feira, 31 de dezembro de 2015

FELIZ ANO NOVO




Para as minhas amigas e amigos e todos aqueles que passam pelo "meu mar" eu desejo tudo de bom. Muita saúde, amor, harmonia, muita paz interior e exterior ... e também alguma sorte.


Maripa


terça-feira, 22 de dezembro de 2015

FELIZ NATAL




Natal de quem?

Mulheres atarefadas
Tratam do bacalhau,
do peru, das rabanadas.

- Não esqueças o colorau,
O azeite e o bolo-rei!

-  Está bem, eu sei!

- E as garrafas de vinho?

- Já vão a caminho!

-Oh mãe, estou pr'a ver
Que prendas vou ter.
Que prendas terei?

- Não sei, não sei...

Num qualquer lado, 
Esquecido,abandonado,
O Deus-Menino
Murmura baixinho:

- Então e Eu,
Toda a gente me esqueceu?

Senta-se a família
À volta da mesa.

Não há sinal da cruz,
Nem oração ou reza.

Tilintam copos e talheres.
Crianças, homens e mulheres
Em eufórico ambiente.
Lá fora tão frio,
Cá dentro tão quente!

Algures esquecido,
Ouve-se Jesus dorido:
- Então e Eu, 
Toda a gente Me esqueceu?

Rasgam-se embrulhos,
Admiram-se as prendas,
Aumentam os barulhos
com mais oferendas.
Amontoam-se sacos e papeis
Sem regras nem leis.

E Cristo Menino
a fazer beicinho:
-Então e Eu,
Toda a gente me esqueceu?

O sono está a chegar.
Tantos restos por mesa e chão!
Cada um vai transportar
Bem-estar no coração.
A noite vai terminar
E o Menino, quase a chorar:
- Então e Eu,
Toda a gente  Me esqueceu?
Foi a festa do Meu Natal
E, do princípio ao fim,
Quem se lembrou de Mim?
Não tive tecto nem afecto!

Em tudo, tudo, eu medito
E pergunto no fechar da luz:

Foi este o Natal de Jesus?!!!


João Coelho dos Santos 

in Lágrimas do Mar - 1996

Imagens: Google







BOAS FESTAS

Que a Luz do Menino Jesus, iluminando todos os lares, os encha de alegria.
Que o espírito de Natal traga aos nossos corações a fé inabalável dos que acreditam num tempo novo de Paz e Amor.





quarta-feira, 18 de novembro de 2015

SILÊNCIO




chego em silêncio
sinto o sol nas veias.

uma brisa lava o meu rosto
tenho sede de mar.

deito-me na areia
naquela frescura azul.

caminho em palavras
ligada ao mar e ao sol.

o dia é um vazio entre os espaços
fico indecisa e ardente.

sinto-me perdida entre os ventos
ouço vozes na penumbra desse vazio.

sei o que amo
e amo num abandono total.

sou alguém que espera
e que pergunta e responde.

uma esperança impossível,

a que caminha no repouso
do seu próprio silêncio.
o meu.


l.maltez

imagens Google




sábado, 7 de novembro de 2015

David Garrett


David Garrett


"Meditation from Thais"

  Jules Massenet







sexta-feira, 23 de outubro de 2015

OS OLHOS FALAM





Os olhos falam. 
Falam de histórias,
pequenas memórias longínquas,
lavadas pelas águas do rio
que se encaminha para a foz.
Os olhos brilham
quando o sol põe reflexos reluzentes
nas asas das libelinhas
enquanto voam rente ao rio.
Os salgueirais das margens
parecem mais verdes
quando baloiçam com trejeitos  de dança
ou adeuses infinitos.


Na tarde lenta
os olhos cansados, calam-se.
O sol declina
e o remoinho das emoções vem à tona. 

No silêncio sem norte,
um barco aguarda  a hora da luz derradeira.

Ao acordarem, as libelinhas,
entretanto adormecidas
nos braços macios dos salgueiros,
rumam a sul,
esgueirando-se por entre lágrimas de água. 



Maripa

Imagens: Google







sábado, 17 de outubro de 2015

HÁ MULHERES QUE TRAZEM O MAR NOS OLHOS




Há mulheres que trazem o mar nos olhos
Não pela cor
Mas pela vastidão da alma
E trazem a poesia nos dedos e nos sorrisos
Ficam para além do tempo
Como se a maré nunca as levasse
Da praia onde foram felizes.

Há mulheres que trazem o mar nos olhos
Pela grandeza da imensidão da alma
Pelo infinito  modo como abarcam as coisas 
e os Homens...
Há mulheres que são maré  em noites de tardes 
e calma. 


Sophia de Mello Breyner

Imagens Goggle










sábado, 10 de outubro de 2015

DISPO-ME DE SOMBRAS





Dispo-me de sombras para colher a cor
serena e quente das folhas de outono.

Descalço-me para não afastar o silêncio
que me enlaça com gestos de abandono.

Nos momentos de frágil transparência
envolvo-me em singelos sons musicais e
em sacros poemas a voar na paisagem
uma dança imanente.

Instantes incendidos de saudade
amena e indiferente
aos ressaltos da espiral do tempo
que por mim passa e
aos humores e rumores do vento
que me provoca e abraça.


Maripa

Imagens Google






sábado, 3 de outubro de 2015

   




segunda-feira, 28 de setembro de 2015

MUITAS VEZES EM SETEMBRO




Muitas vezes em setembro o sol abre o dia.
As horas espalham-se mornas sobre a pele
e aquecem a memória supostamente fria...


Incendida e impetuosa  mostra as  palavras "luz  amor vida" gravadas  na caixa de música florida que foi nossa. Conta que a melodia que fazia dançar a bailarina como nuvem solta no ar , tinha deixado de se ouvir. Que  as palavras entristeceram e nunca mais foram felizes e assim , numa vertigem se desmoronaram. Que as letras, soltas e sós, sem fulgor nem sonho para as incentivar a unir-se, abraçaram e beijaram o rosto húmido da bailarina num adeus sem regresso. Conta que agora, dos olhos sem brilho, lágrimas lhe caem no colo como furtivas canções de outono...


Muitas vezes nas tardes de setembro adormeço
recostada na cadeira de baloiço e tenho sonhos.

Acordo, recordando a bailarina  a melodia
a caixa de música há tanto tempo partida...

                                            ...acordo e estremeço.



Maripa

Imagens Google







sexta-feira, 25 de setembro de 2015

UM SUSSURRO







Um sussurro
ou o canto longínquo 
de um pássaro triste
talvez uma palavra
lançada ao acaso soprada ao vento
ou a espuma do mar
tomando conta do meu pensamento

uma criança perdida estremece de frio dentro de mim 
sozinha ao relento




Ruth Ministro








quarta-feira, 16 de setembro de 2015

COM ESTA SUAVE ARAGEM




Com esta suave aragem
com barcos em tons de azul
quase toco as nuvens com a mão.

Neste momento suspenso
sem segundos nem minutos
há imagens que tocam a ilusão.

Medito sem grandes pressas
 - tenho que me reinventar- 
e dada
a falta de ondas em agitação
navego até aos mares do sul,
levando na bagagem pensares
com tons rosados a madrugar.

Alindo-me com a blusa de flores
que me deste no dia dos meus anos 
e com tatuagens em tons pastel.

Para trás 
muitas coisas vou deixar...
[o velho vestido lilás
                         vou atirá-lo ao mar!]

Revestida com outra pele,
com esta suave aragem
com barcos em tons de azul,
quase invento a perfeição...

Maripa

Imagens Google







sexta-feira, 11 de setembro de 2015

DAI-ME UM DIA BRANCO





Dai-me um dia branco, um mar de beladona
Um movimento
Inteiro, unido, adormecido
Como um só momento.

Eu quero caminhar como quem dorme
Entre países sem nome que flutuam.

Imagens tão mudas
Que ao olhá-las me pareça
Que fechei os olhos.

Um dia em que se possa não saber.


Sophia de Mello Breyner

Imagens Google