Conta e Tempo
Deus pede estrita conta do meu tempo.
E eu vou, do meu tempo, dar-lhe conta,
Mas como dar, sem tempo, tanta conta,
Eu, que gastei, sem conta, tanto tempo?
Para dar minha conta feita a tempo,
O tempo me foi dado, e não fiz conta.
Não quis, sobrando tempo, fazer conta.
Hoje, quero fazer conta, e não há tempo.
Oh, vós, que tendes tempo sem ter conta,
Não gasteis vosso tempo em passatempo.
Cuidai, enquanto há tempo, em fazer conta!
Pois, aqueles que, sem conta, gastam tempo,
Quando o tempo chegar, de prestar conta
Chorarão, como eu, o não ter tempo...
António da Fonseca Soares
Imagens: Google
Soneto, obra prima do trocadilho, escrito no século XVII. Frei António das Chagas, de seu nome António da Fonseca Soares, também conhecido por Padre António da Fonseca [Vidigueira, 25 de Junho de 1631 - Varatojo - Torres Vedras, 20 de Outubro de 1682] foi um frade franciscano e poeta português.
[Soneto recebido, por mail, de uma amiga de quem gosto muito].
Bem haja, Isabel.
Beijinho