sexta-feira, 11 de setembro de 2015

DAI-ME UM DIA BRANCO





Dai-me um dia branco, um mar de beladona
Um movimento
Inteiro, unido, adormecido
Como um só momento.

Eu quero caminhar como quem dorme
Entre países sem nome que flutuam.

Imagens tão mudas
Que ao olhá-las me pareça
Que fechei os olhos.

Um dia em que se possa não saber.


Sophia de Mello Breyner

Imagens Google








sábado, 22 de agosto de 2015

NÃO EXISTE CHAVE PARA O TEMPO




Não existe chave para o tempo
nem para o vértice
da vida.

Consciente
 de que tudo tem um fim
espero paciente
o desabar dos pilares que sustentaram
a essência do que fui e ainda sou.

O sopro pleno
que fazia fluir em mim a energia vital
e me conduzia a céus sem limites
e à eternidade das paisagens
desbotou a cor da memória
e da vontade antiga
 enquanto o querer
de dentro
voou.


Maripa

Imagens Google





terça-feira, 4 de agosto de 2015

INVENÇÃO




Se é por mim que traço
o teu retrato,
a sobrancelha, a boca
o pensamento

É por ti, também
que já o guardo
e o demoro naquilo que eu
invento

A mão descida ali
o ombro inclinado

Os dedos descuidados
o gesto de que lembro

Se é por mim que faço
o teu retrato
dizendo de ti mais do que 
entendo

É por ti que o testemunho
e faço:
o nariz, a face dissimulando os dentes

Deixo para o fim os lábios
os olhos deste mar
com a cor do luar a meio de Agosto

Se desvendo de ti o sol-posto
é porque vejo o coração
amar 
e nada mais me dá tamanho gosto

Maria Teresa Horta

Imagens GOOGLE



terça-feira, 28 de julho de 2015

APRENDER




Aprender
a religar as palavras
escritas no livro 
da vida
ver
a formosura de um búzio
luz de madrepérola
viva
observar
o marulhar das marés
o ir e voltar
 da água
conceber
como enorme pano de fundo
o horizonte azul
profundo
sentir
o espírito a alagar-se de mar
de energias indecifráveis
  límpidas     sagradas
puras
ajoelhar
mãos postas erguidas numa prece
a orar penitente e simples
hossana nas alturas.


Maripa

Imagens: Irina Todorova






segunda-feira, 20 de julho de 2015

ANTES QUE


Robin Mead


Preciso de adormecer antes
que a noite fuja
e os pássaros azuis levantem voo
do ninho dos poemas.

Preciso  vivenciar antes
que o jardim interior definhe
_em tempo de incertezas_
o abrir da flor das alfazemas.

Preciso suavizar-me antes que
as borboletas deixem os casulos.

E exorcizar todos os dilemas.


Maripa








segunda-feira, 13 de julho de 2015

MENSAGEM A UM DESCONHECIDO..






Teu bom pensamento longínquo me emociona.
Tu, que apenas me leste,
acreditaste em mim e me entendeste profundamente.

Isso me consola dos que me viram,
a quem mostrei toda a minha alma,
e continuaram ignorantes de tudo o que sou,
como se nunca me tivessem encontrado.



Cecília Meireles in POESIA COMPLETA







sexta-feira, 3 de julho de 2015

QUANDO A MANHÃ NASCER






Para caminhar para além do horizonte
não posso esquecer nem abandonar
nada do que me enterneceu e deu força.

Os amores   as marés   as flores    os sóis   os luares
todos os silêncios e falares que peregrinaram comigo.

Se houver degraus começarei, já hoje,
a subi-los um a um até alcançar a nuvem
onde possa repousar da íngreme escalada.
No azul-negro, estrelas lanternas, vão luzir,
e o meu dormitar será um dormir a sono solto
impregnado de aromas a desabrochar na lonjura.

E quando a madrugada se erguer nas asas do sol,
na hora do lado de cá do vento, no instante  
em que a medida do tempo me colheu,
o firmamento será um lago e o mar uma pintura.

E quando a manhã nascer
o horizonte será essa manhã
                                                   que sonhei para ser eu.



Maripa

Pinturas: Yuliya Glavnaya








segunda-feira, 22 de junho de 2015

TUDO ERA MAIS PRÓXIMO






Lembro sinais
do tempo em que
tudo era mais próximo
tudo era mais pequeno.

Era
tudo aqui junto a mim
encostado no meu colo
ligado às minhas mãos.

Colhia as maçãs
dos braços das macieiras
ao mesmo tempo que
perto do chão os morangos
exibiam o sabor de cada dia.

Era afortunada e não sabia.
Tudo era mais próximo
tudo era mais pequeno.

Não sabia do longe que existia
... do perto guardava em mim
a cor      a luz      a serenidade 
duma esplendorosa harmonia.


Maripa

Pinturas: Cheri Wollemberg







terça-feira, 16 de junho de 2015

UMA PEQUENINA LUZ





Uma pequenina luz bruxuleante
não na distância brilhando no extremo da estrada
aqui no meio de nós e a multidão em volta
une toute petite lumière
just a little light
una picolla... em todas as línguas do mundo
uma pequena luz bruxuleante
brilhando incerta mas brilhando
aqui no meio de nós
entre o bafo quente da multidão
a ventania dos cerros e a brisa dos mares
e o sopro azedo dos que a não vêem
só a adivinham e raivosamente assopram.
Uma pequena luz
que vacila exacta
que bruxuleia firme
que não ilumina apenas brilha.
Chamaram-lhe voz ouviram-na e é muda.
Muda como a exactidão como a firmeza
como a justiça
brilhando indefectível.
Silenciosa não crepita
não consome não custa dinheiro.
Não aquece também os que de frio se juntam.
Não ilumina também os rostos que se curvam.
Apenas brilha bruxuleia ondeia
indefectível próxima dourada.
Tudo é incerto ou falso ou violento: brilha.
Tudo é terror vaidade orgulho teimosia: brilha.
Tudo é pensamento realidade sensação saber: brilha.
Tudo é treva ou claridade contra a mesma treva: brilha.
Desde sempre ou desde nunca para sempre ou não:
brilha.
Uma pequenina luz bruxuleante e muda
como a exactidão como a firmeza
como a justiça.
Apenas como elas.
Mas brilha.
Não na distância. Aqui
no meio de nós.
Brilha.



Jorge de Sena





terça-feira, 9 de junho de 2015

PALAVRAS ABERTAS EM FLOR





Naquele livro,
em cada página um rio de palavras
abertas em flor
deslizava para o mar.
Nuvens ondeavam no céu tingido 
de azul-sossego
enquanto
o silêncio e o perfume das letras,
amarradas uma a uma
entre margens,
precisavam de asas
para serem livres como  borboletas.

Entre as folhas repousavam
um coração de papel, um trevo da sorte,
uma fita de seda, uma rosa ressequida.
Migalhas de tempos de mel.

Agora
na fluidez dos tempos líquidos e efémeros,
desorientados,  medos brancos,  medos negros
deixam voar  palavras abertas em flor...
É um agora sem brilho
onde medos  negros  sobressaltam corações
esgotados por  ventos a soprar sem  norte.



Maripa

Imagens: Google







sexta-feira, 5 de junho de 2015

CANÇÃO BREVE






Tudo me prende à terra onde me dei:
o rio subitamente adolescente,
a luz tropeçando nas esquinas,
as areias onde ardi impaciente.

Tudo me prende do mesmo triste amor
que há em saber que a vida pouco dura
e nela ponho a esperança e o calor
de uns dedos com um resto de ternura.

Dizem que há outros céus e outras luas
e outros olhos densos de alegria,
mas eu sou destas casas, destas ruas,
deste amor a escorrer melancolia.



Eugénio de Andrade

Imagens: Francine  van Hove





terça-feira, 2 de junho de 2015

CONTA E TEMPO





Conta e Tempo

Deus pede estrita conta do meu tempo.
E eu vou, do meu tempo, dar-lhe conta,
Mas como dar, sem tempo, tanta conta,
Eu, que gastei, sem conta, tanto tempo?

Para dar minha conta feita a tempo,
O tempo me foi dado, e não fiz conta.
Não quis, sobrando tempo, fazer conta.
Hoje, quero fazer conta, e não há tempo. 

Oh, vós, que tendes tempo sem ter conta,
Não gasteis vosso tempo em passatempo.
Cuidai, enquanto há tempo, em fazer conta!

Pois, aqueles que, sem conta, gastam tempo,
Quando o tempo chegar, de prestar conta
Chorarão, como eu, o não ter tempo...



António da Fonseca Soares

Imagens: Google


Soneto, obra prima do trocadilho, escrito no século XVII. Frei António das Chagas, de seu nome António da Fonseca Soares, também conhecido por Padre António da Fonseca [Vidigueira, 25 de Junho de 1631 - Varatojo - Torres Vedras, 20 de Outubro de 1682] foi um frade franciscano e poeta português.

[Soneto recebido, por mail, de uma amiga  de quem gosto muito]. 
Bem haja, Isabel.

Beijinho  







segunda-feira, 1 de junho de 2015

DIA MUNDIAL DA CRIANÇA







"Só é possível ensinar uma criança a amar, amando-a." 
Johann Goethe








O Dia Mundial da Criança é oficialmente o dia 20 de novembro, data em que a ONU reconhece como Dia Universal das Crianças por ser a data em que foi aprovada a Declaração dos Direitos da Criança . No entanto em muitos países é comemorado a 1 de junho como é o caso de Portugal.

sexta-feira, 29 de maio de 2015

CHUVA NO MAR





Coisas transformam-se em mim

É como chuva no mar

....




Cantam

Carminho e Marisa Monte

domingo, 24 de maio de 2015

NOITE APRESSADA


Foto de Declan McCullagh


Era uma noite apressada
depois de um dia tão lento.
Era uma rosa encarnada
aberta nesse momento.
Era uma boca fechada
sob a mordaça de um lenço.
Era afinal quase nada,
e tudo parecia imenso!

Imensa a casa perdida
no meio do vendaval;
imensa, a linha da vida
no seu desenho mortal;
imensa, na despedida,
a certeza do final.

Era uma haste inclinada
sob o capricho do vento.
Era minh'alma, dobrada,
dentro do teu pensamento.
Era uma igreja assaltada,
mas que cheirava a incenso.
Era afinal quase nada,
e tudo parecia imenso!

Imensa, a luz proibida
no centro da catedral;
imensa, a voz diluída
além do bem e do mal;
imensa, por toda a vida,
uma descrença total!


David Mourão-Ferreira in " À guitarra e à viola"









domingo, 17 de maio de 2015

TANTO TEMPO...






Dos poentes
levarei a paz e a cor
de fogo espraiada sobre o mar

sem ondas
sem barcos
nem gaivotas.

Das tardes sonolentas e quase adormecidas
levarei a essência e os matizes das glicínias
presas às janelas de grades e às ramadas.

Do teu olhar 
levarei a suavidade do aconchego no tempo.
Tanto tempo...de viver firme, suspenso
das horas lisas das nossas manhãs

e madrugadas.


Maripa

Imagens: Pinterest






quinta-feira, 14 de maio de 2015

SERIA LOUCURA?...


deviantart.com



A madrugada levantou-se cedo.
Cada instante seguiu um a um
na manhã pintada de frescura.

Os reflexos dos raios de sol
brincaram com todas as gotas
do fino arco-íris da ternura.

E se o primordial fosse deste jeito
                                íntegro e puro?  

Se o fogo e as cinzas
as vozes dissonantes
as arritmias do tempo
as ironias do destino
as promessas viciadas
se diluíssem como sal?

E se a incoerência e a insensatez
                     sumissem no futuro?

                                Seria loucura?...


Maripa




Imagem da net

quinta-feira, 7 de maio de 2015

NÃO SEI QUANTAS ALMAS TENHO





Não sei quantas alma tenho.
Cada momento mudei.
Continuamente me estranho.
Nunca me vi nem achei.
De tanto ser, só tenho alma.
Quem tem alma não tem calma. 
Quem vê é só o que vê,
Quem sente não é quem é,

Atento ao que sou e vejo,
Torno-me eles e não eu.
Cada meu sonho ou desejo
É do que nasce e não meu.
Sou minha própria paisagem,
Assisto à minha passagem,
Diverso, móbil e só
Não sei sentir-me onde estou.

Por isso, alheio, vou lendo
Como páginas meu ser.
O que segue não prevendo,
O que passou a esquecer.
Noto à margem do que li
O que julguei que senti.
Releio e digo: Fui eu?
Deus sabe, porque o escreveu.

Fernando Pessoa

Imagens: Google







sexta-feira, 1 de maio de 2015

DANÇAR À CHUVA





Ontem...num ontem muito longínquo,
em primaveras suaves aconteciam
                               dias de chuva miudinha, 
                               gotinhas transparentes
a cair do céu em fiadas brandas
quase a pedir uma licença breve
para orvalhar as árvores viçosas
                   abertas em verdes diferentes 
                   e as flores de todas as cores...

Como eu gostava de dançar à chuva,
de gozar o cheiro a terra molhada,
                   como era bom chapinhar na água
                   dos quintais da minha infância...

E o espanto perante as noites de verão
abençoadas pela lucidez das estrelas
que me sorriam ao procurar pirilampos? 


Maripa 

Imagens: Susan Batori