quinta-feira, 6 de fevereiro de 2020

CLAREZA




Se eu tivesse que escolher uma cor para as tuas palavras seria o cinza.
Não pelo negrume da tristeza. Bonito, esse teu negrume, sabias?
Seria pela calma. É isso. Pela calma que me trazes às margens das manhãs ou das tardes.
Conforme a inclinação do sol.

As tuas palavras só não têm a cor branca porque não as descobriria nesta folha.
Mas são brancos, esses bordados de luz que te escorrem entre os dedos.


Isabel Pires




Imagens: Google


terça-feira, 28 de janeiro de 2020

NUM LUGAR QUE NÃO EXISTE



Num lugar que não existe, 
tão próximo do mar quanto possível,
escrevo o último poema do ano
sem que saibas que o estou a escrever.

Sento-me rente ao derradeiro precipício
da tarde como se não tivesse vertigens.

Aliso a saia que não uso há mais de vinte
anos para que nenhum vinco gesto alusão
fique por compor.

E deixo que o vento revolva tudo o mais que
em mim existe: uma flor súbita nos cabelos,
o mais frágil e hesitante botão da blusa,
a forma como os meus dedos pronunciam
em surdina a solidão e, por fim, o que resta
de um sorriso, o que fica de sagrado do amor,
num rosto inesquecível que não é o meu.

Neste lugar que não existe,
escrevo-te o último poema do ano
e não saberás nunca que o estou a escrever.


Sandra Costa



Imagens: Google

sexta-feira, 17 de janeiro de 2020

DEBRUÇADA NA JANELA



...

debruçada
na janela do quarto das lembranças
absorvo o perfume a limonete,
mesmo ali, ao fundo do jardim.

É um perfume em jeito de gente
a passear ao colo da brisa
                                       passo miúdo   incerto
ternura molhada ao canto do olho
                                          a espalhar sombras
                                          e a plantar miosótis
nos canteiros do jardim dos segredos...

Permaneço no interior de mim
com a esperança de lembrar
                   das sombras     a leveza    o silêncio
                   dos miosótis     o azul que me foge.


Maripa




Imagens. pinterest


quarta-feira, 15 de janeiro de 2020

SALVADOR SOBRAL - ANDA ESTRAGAR-ME OS PLANOS






Salvador Sobral partilhou no  YouTube uma versão completa da canção “Anda Estragar-me os Planos”, cuja versão original tinha Joana Barra Vaz como intérprete...




Gosto de o ouvir...

Anda estragar-me os planos

Ah faltam-me as saudades e os ciúmes
Já, tenho a minha conta de serões serenos
Quero é ir dançar

Sei por onde vou
É o melhor caminho
Não deixo nada ao acaso
Por favor, anda trocar-me o passo

Tenho uma rotina
Pra todos os dias
Há de durar muitos anos

Por favor, anda estragar-me os planos
Tira os livros da ordem certa
Deixa a janela do quarto aberta
Faz-me esquecer que amanhã vou trabalhar

Ah, faltam-me as saudades e os ciúmes
Já, tenho a minha conta de serões serenos
Quero ir dançar

Um, dois...

Ah, faltam-me as saudades e os ciúmes
Já, tenho a minha conta de serões serenos
Tardes tontas, manhãs mecânicas
Eu quero é ir dançar



(Francisca Cortesão/Afonso Cabral)





segunda-feira, 13 de janeiro de 2020

HÁ SEMPRE UM EQUÍVOCO EM CADA DESPEDIDA



Há sempre um equívoco em cada despedida.


A ondulação do mar que sempre procuro na
imobilidade dos lugares, dissipada a bruma
melancólica que em mim apaga as tuas feições.

Uma estação em estado de esteio ou de janela.

A exaltação da espera no desprendimento
da última folha da magnólia, esse percurso
ininterrupto que foi a tua mão na minha.

Uma planície onde se precipita a morte.

A conjugação da luz num coração futuro,
pedaço de metal pedaço de poesia onde
escondo o ofício sincopado de permanecer tua.

«O amanhã não existe no mesmo lugar»:
há sempre um começo antigo em cada despedida.

                                                                                               
Sandra Costa



Imagens: Pinterest 

sábado, 11 de janeiro de 2020

ANTÓNIO ZAMBUJO e MIGUEL ARAÚJO





Gosto de ouvir...


                António Zambujo e Miguel Araújo



                a cantarem  "No Rancho Fundo"




o samba- canção brasileiro

 de Ary Barroso (música) 

e

Lamartine Babo (letra) 

[versão de 1931]
   

quarta-feira, 8 de janeiro de 2020

DA CRIAÇÃO




Da criação

invento manhãs de lugares macios
bordados a luz, águas mansas e fios de olhares
como se fossem
flores a beijar a pele
aves famintas a anunciar navios em
misturas de azul e cinza roubado ao negro
que brincam ao arco e lavam as pedras.

desdobram-se sedas
que aconchegam sons
para vestir as manhãs dos sonhos
enquanto o trinado dos pássaros semeia grinaldas de luz.


Isabel Pires



Imagens: Pinterest


sexta-feira, 3 de janeiro de 2020

FIZESTE-ME





Fizeste-me cântico em versos de vidro
na imensidão  do cosmos onde fulgura
toda a exatidão do belo. Tudo parece

imutável na plenitude serena dos astros
e na ausência visível  do turbilhão
efervescente dos magmas. Mas

tudo é um poema em incandescência.
Deixa-me que me transporte para a
serenidade inalterável da luz das memórias

onde me esperará uma sinfonia de estrelas
na imaterialidade dos Tempos.


Manuela Barroso






Imagens: Pinterest

segunda-feira, 30 de dezembro de 2019

RECOMEÇA



Um belo poema de Miguel Torga para começar 2020 

Recomeça….

Se puderes
Sem angústia
E sem pressa.
E os passos que deres,
Nesse caminho duro
Do futuro
Dá-os em liberdade.
Enquanto não alcances
Não descanses.
De nenhum fruto queiras só metade.

E, nunca saciado,
Vai colhendo ilusões sucessivas no pomar.
Sempre a sonhar e vendo
O logro da aventura.
És homem, não te esqueças!
Só é tua a loucura
Onde, com lucidez, te reconheças…


Miguel Torga





domingo, 15 de dezembro de 2019

NATAL




Natal agora


Neste solstício de inverno ele vai nascer
algures no Mundo entre ruínas
no lugar do não ser ele vai nascer
deitado nas palhinhas entre
bombas naufrágios minas
cada mulher que foge o traz no ventre
o mesmo coração um só destino
algures no mundo ele vai ser
em todos os meninos o menino.


Manuel Alegre  [18.12.2015]















quarta-feira, 4 de dezembro de 2019

PEQUENA ELEGIA CHAMADA DOMINGO



Pequena Elegia Chamada Domingo


O domingo era uma coisa pequena.
Uma coisa tão pequena
que cabia inteirinha nos teus olhos.
Nas tuas mãos
estavam os montes e os rios
e as nuvens.
Mas as rosas,
as rosas estavam na tua boca.

Hoje os montes e os rios
e as nuvens
não vêm nas tuas mãos.
(Se ao menos elas viessem
sem montes e sem nuvens
e sem rios...)
O domingo está apenas nos meus olhos
e é grande.
Os montes estão distantes e ocultam
os rios e as nuvens
e as rosas.


                  
Eugénio de Andrade



Imagens: Pinterest


quinta-feira, 21 de novembro de 2019

EM CADA NOITE ME APAGO




Em cada noite me apago e
me perco num labirinto de frases silenciosas.
A cada respiro,
enigmas por decifrar e
perguntas saídas do esquecimento
fazem ninho no beiral do meu peito.
E é de um chão atapetado de musgo e heras
que vejo o mundo fugir à velocidade de um suspiro.


Em cada dia me acendo
no fruto maduro das manhãs e
no deus que mata a sede do meu grito.

E é quase morrendo
que voo de sonho em sonho e
me sonho cotovia, asas de primavera,
pássaro leve cor do infinito.

Em cada noite me apago.
Em cada dia me acendo.

Maripa

["palavras minhas" publicadas em 2009]







 painting by Justina Kopania

quinta-feira, 14 de novembro de 2019

NÃO TE CHAMO PARA TE CONHECER

aguarela de Janet Rogers




Não te chamo para te conhecer
Eu quero abrir os braços e sentir-te
Como a vela de um barco sente o vento

Não te chamo para te conhecer
Conheço tudo à força de não ser

Peço-te que venhas e me dês
Um pouco de ti mesmo onde eu habite


Sophia de Mello Breyner



aguarela: Pinterest

sexta-feira, 8 de novembro de 2019

CHOVE



CHOVE

Lágrimas redondas dizem adeus aos olhares de Outubro.
Chove
no coração dos pássaros,
na fragilidade perfumada das flores,
nas árvores grávidas de frutos outonais.
Chove.
E na humedecida natureza
brilha a deusa- mãe de todas as cores.

Algures,
lágrimas redondas deslizam no espelho das horas
e afogam, sem dó, fantasias sonhadas, vividas ao rubro.



Maripa

["palavras minhas" em outubro de 2009]





Imagens: Pinterest