quinta-feira, 12 de Novembro de 2009

CREIO NOS ANJOS





Creio nos anjos que andam pelo mundo,
Creio na Deusa com olhos de diamantes,
Creio em amores lunares com piano ao fundo,
Creio nas lendas, nas fadas,nos atlantes,

Creio num engenho que falta mais fecundo
De harmonizar as partes dissonantes,
Creio que tudo é eterno num segundo,
Creio num céu futuro que houve dantes,

Creio nos deuses de um astral mais puro,
Na flor humilde que se encosta ao muro,
Creio na carne que enfeitiça o além,

Creio no incrível, nas coisas assombrosas,
Na ocupação do mundo pelas rosas,
Creio que o Amor tem asas de ouro. Ámen.



Natália Correia

Imagem Nadya Kulagina


sexta-feira, 6 de Novembro de 2009

ESGOTEI O MEU MAL


Esgotei o meu mal, agora
Queria tudo esquecer, tudo abandonar
Caminhar pela noite fora
Num barco em pleno mar.


Mergulhar as mãos nas ondas escuras
Até que elas fossem essas mãos
Solitárias e puras
Que eu sonhei ter.


Sophia de Mello Breyner

Imagem da Net

sábado, 31 de Outubro de 2009

DIZ-ME SE NA ÁGUA



diz-me se
na água reconheces o rumor
adormecido nos búzios

diz-me se o outono tem
a ver com as algas
com a incerteza das folhas

e se há um sentido oculto
no rodar das estações

diz-me se
toda a imagem é engano
ou filha enjeitada
do fogo

diz-me se é certo
que o tempo
é o único olhar
prolongado nos dias

se a vida é o avesso da vida
e se há morte


José Tolentino de Mendonça

Imagem da Net

terça-feira, 27 de Outubro de 2009

O BEIJO



Peço-te mar:
traz-me do azul profundo o segredo e o mistério das nereides,
traz-me das marés a flor de sal para temperar o mundo,
traz-me paz [um raminho de oliveira no bico de uma gaivota].
Oh mar!
Traz-me ondas de vida debruadas de espuma branca,
naus de velas redondas verdes de esperança,
traz-me cânticos de luz.
Cantarei para ti salmos em sol poente
e enquanto o eco inocente do canto torna a mim,
a brisa esvoaçante, num hábil bater de asas,
traz-me o beijo que, meigamente, sempre te pedi
em noites de amar em quarto crescente.


Maripa


Imagem da Net

sábado, 24 de Outubro de 2009

CHOVE


Lágrimas redondas dizem adeus aos olhares de Outubro.

Chove
no coração dos pássaros,
na fragilidade perfumada das flores,
nas árvores grávidas de frutos outonais.
Chove.
E na humedecida natureza
brilha a deusa- mãe de todas as cores.

Algures,
lágrimas redondas deslizam no espelho das horas
e afogam, sem dó, fantasias sonhadas, vividas ao rubro.

Maripa

Imagem de Don Paulson

segunda-feira, 19 de Outubro de 2009

SOBRE O POEMA


Um poema cresce inseguramente
na confusão da carne,
talvez ainda sem palavras, só ferocidade e gosto,
talvez como sangue
ou sombra de sangue pelos canais do ser.

Fora existe o mundo. Fora a esplêndida violência
ou os bagos de uva de onde nascem
as raízes minúsculas do sol.
Fora, os corpos genuínos e inalteráveis
do nosso amor,
os rios, a grande paz exterior das coisas,
as folhas dormindo o silêncio,
as sementes à beira do vento,
- a hora teatral da posse.
E o poema cresce tomando tudo em seu regaço.

E já nenhum poder destrói o poema.
Insustentável, único,
invade as órbitas, a face amorfa das paredes,
a miséria dos minutos,
a força sustida das coisas,
a redonda e livre harmonia do mundo.

- Embaixo o instrumento perplexo ignora
a espinha do mistério.

- E o poema faz-se contra o tempo e a carne.


Herberto Helder

Imagem de Josette Mercier

sábado, 17 de Outubro de 2009

FOR SENTIMENTAL REASONS






Rod Stewart [ álbum Stardust ] 2004

e

For sentimental reasons [William Best - Deek Watson] 1945


SO BEAUTIFUL !

quinta-feira, 15 de Outubro de 2009

ORAÇÃO


Oração não é pedir. É um anseio de alma. É uma admissão diária das próprias fraquezas. É melhor na oração ter um coração sem palavras do que palavras sem coração.


Mahatma Gandhi
Imagem da Net

sábado, 10 de Outubro de 2009

O SONHO É A PONTE



O sonho é a ponte
que vai do infinito ao infinito!
É a medida sem comparação,
é a presença do que se imagina.


Sonhar talvez só seja
reconhecer o que já nem a alma sinta
nem o próprio pensamento veja.


Ana Hatherly

Imagem da Net

sábado, 3 de Outubro de 2009

DEIXO VOAR O XAILE


Deixo voar o xaile onde agasalho
a minha nudez [in]terna
e ausento-me para ir mais além.

Serro grades, oxidadas pelo tempo,
enleadas em trepadeiras de afectos.
Cerro olhos.
Olhos-cisterna de águas em movimento,
olhos-fonte de risos sempre correntes,
olhos-rio de ecos brancos a acenar.

Mais além, onde o silêncio é mais azul
e o céu se pinta de vermelho,
afogo a minha ausência num campo de malmequeres.
E
na tarde líquida que se esvai
incendeio o mar,
esqueço-me de mim
e
de voltar.

Maripa

Imagem de Kim Nelson

terça-feira, 29 de Setembro de 2009

UM SOPRO


Um sopro
uma flor
uma pétala a cair
no chão de um dia vago.

Um meio sorriso
um sorriso quase nuvem
rasgado em fragmentos de espanto.


Um olhar veludo
um olhar quase poema
impregnado dos silêncios mornos da noite.

E em cada amanhecer um sopro de nostalgia.


Maripa

terça-feira, 22 de Setembro de 2009

OUTONO



Hei-de partir antes dos ventos altos.
Nos braços levo uma escrita tardia
com cheiro a frutos secos em terraços.
Grinaldas de lilazes no olhar.
Nos ombros o matiz bordado nas florestas
pelas mulheres magníficas do verão.


Encurtados aqui os trabalhos do sol
soltarei os gritos de pobres e de bichos
contra a insânia maior que a invernia.


De pronto partirei que um outro povo
aguarda o tempo novo além do capricórnio.

Licínia Quitério

http://sitiopoema.blogspot.com/

Imagem de Irene Alexeeva

sábado, 19 de Setembro de 2009

PEQUENA ELEGIA CHAMADA DOMINGO

O domingo era uma coisa pequena.
Uma coisa tão pequena
que cabia inteirinha nos teus olhos.
Nas tuas mãos estavam os montes e os rios
e as nuvens.
Mas as rosas,
as rosas estavam na tua boca.

Hoje os montes e os rios
e as nuvens
não vêm nas tuas mãos.
(Se ao menos elas viessem
sem montes e sem nuvens
e sem rios...)
O domingo está apenas nos meus olhos
e é grande.
Os montes estão distantes e ocultam
os rios e as nuvens
e as rosas.

Eugénio de Andrade


segunda-feira, 14 de Setembro de 2009

MORANGO E CHOCOLATE




O tempo olha-me de soslaio
enquanto tropeço numa noite de insónia
e pensamento em queda livre.

Pensamento guloso, pincelado com geleia e mel,
a navegar no mar imaginário que em mim vive.

Rasgo o silêncio e atravesso a madrugada
[ coração bate-que-bate ]
ao som da voz de Jacques Brel.

Olho o tempo de soslaio num doce quebranto,
cálice de Porto na mão
e boca lambuzada de morango e chocolate.




Maripa

terça-feira, 8 de Setembro de 2009

LEMBRO




Lembro-me de ser sereia de olhos líquidos,
olhos aquário com peixes nadando devagar.

Lembro o canto suave
[ chamando o luar grávido de agosto ]
e de dançar na praia das tuas mãos macias.

Lembro o toque, o deslizar das mãos
no corpo vestido de algas e delícias.

Lembro as primícias de mil e uma noites
de astros acesos a transbordar de apelos.

No vagar dos sonhos serei sereia indefinidamente.



Maripa

Imagem de Ed Org





sexta-feira, 31 de Julho de 2009

EM JEITO DE PAUSA




A janela para o meu mar continua aberta a olhar as ondas que escorrem no tempo das marés.




Espero voltar em breve...

Maripa

Imagem de Barbara Stewart

segunda-feira, 27 de Julho de 2009

O VENTO QUER SABER


O vento quer saber
porque persigo a luz de olhos fechados
e asas de silêncio.
Quer saber
se a máscara vestida me despe da cinza
dos dias em que atravesso o deserto.

Quer saber? Nem eu sei...

Pergunte-me em dias brancos à luz de um claro amanhecer.
Em dias de ser gaivota ouço o cantar das marés e
o azul do mar aquieta-me a cor dos pensamentos.

Decerto, vou saber-lhe responder [?].

Maripa

Imagem da Net


sexta-feira, 24 de Julho de 2009

"JESUSALÉM"

[...]

"Conheci meu pai antes de mim mesmo. Sou, assim, um pouco ele. Sem presença de mãe, o peito ossudo de Silvestre Vitalício foi meu único colo, sua velha camisa foi meu lenço, seu ombro magro foi minha almofada. Um monocórdico ressonar foi o meu único canto de embalar.
Durante anos, meu pai foi uma alma doce, seus braços davam a volta à Terra e neles moravam os mais antigos sossegos. Mesmo sendo ele a estranha e imprevisível criatura, eu via no velho Silvestre o único sabedor de verdades, o solitário adivinhador de presságios.
Hoje, eu sei: meu pai tinha perdido os Nortes. Ele vislumbrava coisas que mais ninguém reconhecia. Essas aparições aconteciam, sobretudo, nas grandes ventanias que em Setembro, varrem as savanas. O vento era, para Silvestre, uma dança de fantasmas."

[...]
Pequeno excerto de Jesusalém,
o livro mais recente de Mia Couto.


"A vida é demasiado preciosa para ser esbanjada num mundo desencantado", diz um protagonista deste romance.

A prosa poética, tão pessoal, deste escritor moçambicano ajuda, certamente, a reencantar este nosso mundo.