sexta-feira, 23 de setembro de 2016

ENTRE A SALIVA E OS SONHOS




Entre a saliva e os sonhos há sempre
uma ferida de que não conseguimos
regressar

E uma noite a vida
começa a doer muito
e os espelhos donde as almas partiram
agarram-nos pelos ombros e murmuram
como são terríveis os olhos do amor
quando acordam vazios.  


Alice Vieira

Imagens GOOGLE




sábado, 17 de setembro de 2016

ABANDONASTE AS PALAVRAS




Abandonaste as palavras
e elas esqueceram-se de ti.

Agora,
agora tens saudades, eu sei,
da sua voz ora quieta, ora impaciente
do seu sabor quer aveludado, quer ardente.

Palavras  com música  com cor  com perfume...
Enjeitaste-as porque te deixavam os olhos orvalhados
ou porque algumas te queimavam como lume?

Chama-as, tenta seduzi-las, leva-as contigo a ver o mar... 
Lembra com ficavam azuis de contentamento,
suaves e macias a respirarem maresias.
Abraça-as em plenitude no esplendor das ondas.

 Sem elas, as madrugadas vão ficar cada vez mais frias.

Maripa 

 Imagens GOOGLE
e
Stefanov Alexander









quarta-feira, 14 de setembro de 2016

TU ÉS A ESPERANÇA




Tu és a esperança, a madrugada.
Nasceste nas tardes de setembro,
quando a luz é perfeita e mais doirada,
e há uma fonte crescendo no silêncio
da boca mais sombria e mais fechada.

Para ti criei palavras sem sentido,
inventei brumas, lagos densos,
e deixei no ar braços suspensos
ao encontro da luz que anda contigo.

Tu és a esperança onde deponho
meus versos que não podem ser mais nada.
Esperança minha, onde os meus olhos bebem,
fundo, como quem bebe a madrugada.


Eugénio de Andrade

Imagens: Victoriia Tkachenco






sexta-feira, 2 de setembro de 2016






William Butler Yeats  [ 1865  Dublin, Irlanda - 1939 Menton, França] 

Prémio Nobel em 1923

segunda-feira, 15 de agosto de 2016

ÀS VEZES





"Nada é pequeno no amor. Quem espera as grandes ocasiões para provar a sua ternura não sabe amar."


Laure Conan

Imagens : GOOGLE







segunda-feira, 8 de agosto de 2016

TEMPO...


@floriografia



Aproveite cada minuto porque o tempo não volta ...


O que volta é a vontade 
de voltar no tempo...









sábado, 30 de julho de 2016

SE TODO O SER AO VENTO ABANDONAMOS






Se todo o ser ao vento abandonamos
E sem medo nem dó nos destruímos,
Se morremos em tudo o que sentimos
E podemos cantar, é porque estamos
Nus em sangue, embalando a própria dor
Em frente às madrugadas do amor.
Quando a manhã brilhar refloriremos
E a alma beberá esse esplendor
Prometido nas formas que perdemos.

Aqui, deposta enfim a minha imagem,
Tudo o que é jogo e tudo o que é passagem.
No interior das coisas canto nua.

Aqui livre sou eu _ eco da lua
E dos jardins, os gestos recebidos
E o tumulto dos gestos pressentidos
Aqui sou eu em tudo quanto amei.

Não pelo meu ser que só atravessei,
Não pelo meu rumor que só perdi,
Não pelos incertos actos que vivi,

Mas por tudo de quanto ressoei
E em cujo amor de amor me eternizei.



Sophia de Mello Breyner

Imagens : Christine Ellger









sábado, 23 de julho de 2016

A CASA DOS meus SONHOS




A casa dos meus sonhos tem a brisa do mar por perto 
e um jardim onde os verdes e as flores
são promessas de manhãs futuras
                                                           límpidas e puras.

A voz ondeante das marés chega pelo espaço aberto
da janela. Luzes acesas à distância perdem-se no ar.
E dentro do pátio onde dorme a saudade,
o meu silêncio inquieto ressuscita a liquidez das águas 
                                                  e sente o abraço do mar.



Maripa

Imagens GOOGLE


                                                         

  
  

quinta-feira, 21 de julho de 2016

A FLOR




Pede-se a uma criança. Desenhe uma flor! Dá-se-lhe papel e lápis. A criança vai sentar-se no outro canto da sala onde não há mais ninguém.

Passado algum tempo o papel está cheio de linhas. Umas numa direcção, outras noutra; umas mais carregadas, outras mais leves, umas mais fáceis, outras mais custosas. A criança quis tanta força em certas linhas que o papel quase não resistiu.

Outras eram tão delicadas que apenas o peso do lápis já era demais.

Depois a criança vem mostrar essas linhas às pessoas: Uma flor!

As pessoas não acham parecidas estas linhas com as de uma flor!

Contudo, a palavra flor , andou por dentro da criança, da cabeça para o coração e do coração para a cabeça, à procura das linhas com que se faz uma flor, e a criança pôs no papel algumas dessas linhas, ou todas. Talvez as tivesse posto fora dos seus lugares, mas são aquelas as linhas com que Deus faz uma flor!


Almada Negreiros

Imagens Google






sexta-feira, 15 de julho de 2016

A MAIS BONITA LÁGRIMA



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"A mais bonita lágrima é a da saudade, pois ela nasce dos risos que já foram, dos sonhos que não acabam e das lembranças que jamais se apagam."

Paulo Ursaia

Imagens: Google



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domingo, 10 de julho de 2016

NO TEMPO DIVIDIDO





E agora ó Deuses que vos direi de mim?
Tardes inertes morrem no jardim.
Esqueci-me de vós e sem memória
Caminho nos caminhos onde o tempo
Como um monstro a si próprio se devora.


Sophia de Mello Breyner

imagens Google










terça-feira, 5 de julho de 2016

QUANDO OS TEUS OLHOS ABSORVEM







Quando os teus olhos absorvem
todas as cores da minha
mais íntima tristeza,
e compreendes e calas e prometes
um lugar qualquer na tua alma, 
e a tua voz demora a regressar
ao neutro compromisso das palavras

sei que as tuas mãos ajudariam
a limpar estas lágrimas antigas
por dentro do meu rosto.

Victor Matos e Sá

Imagem : Sarah Fecteau








quinta-feira, 23 de junho de 2016

A FLOR QUE ÉS...






A flor que és,
não a que possa comprar
te venho oferecer.

Porque não tem preço
o que te ofereço.

E se me debruço a colher a pétala
a terra inteira em teus dedos se desfolha.

E se a mais pura flor para ti desenho
a inteira pétala no nada se despenha.
Porque és a sombra do sonho em que anoiteço.

Morrer é ter terra finita.
E eu tenho a febre da inatingível margem.
Por isso encho de mar o teu olhar.

Mia couto

Imagens : Christine Ellger










quarta-feira, 15 de junho de 2016

DIA DO MAR NO AR





Dia do mar no ar, construído
Com sombras de cavalos e de plumas

Dia do mar no meu quarto - cubo
Onde os meus gestos sonâmbulos deslizam
Entre o animal e a flor como medusas.

Dia do mar no ar, dia alto
Onde os meus gestos são gaivotas que se perdem
Rolando sobre as ondas, sobre as nuvens.


Sophia de Mello Breyner

Imagem : Google







terça-feira, 19 de abril de 2016

SABEDORIA





Sabedoria


gostava de saber dizer-te como se vem de longe
num pincel de rembrandt desde o lugar do junco
ou da selva ou da água ou só do norte e da neve

e nos sentamos aqui sob o azul dos plátanos: um
murmúrio incessante do mover das aves

suave é esta a sabedoria
conhecer os instantes gomo a gomo como um fruto
ainda verde a querer despontar iluminar-se e colhê-lo
breve nos nossos dedos inteiro

e sob a nossa voz a nossa boca o nosso olhar
não estar nenhum rumor nenhum silêncio nenhum gesto


Francisco José Viegas

Imagens: Google






domingo, 20 de março de 2016

NO RENASCER DA PRIMAVERA






No renascer da primavera
traz-me uma flor [só uma]. Uma flor
de silêncio branco diluído na tarde.

Traz ainda um fio de água fresca
para serenar a sede que em mim arde.

E se conseguires, amor,
traz contigo o canto das amendoeiras.
Assim, quando embalarmos o anoitecer
e enaltecermos o seu alarde,
poderemos , no baloiço,
adormecer.


Maripa

Imagens: GOOGLE







terça-feira, 8 de março de 2016

MULHER TODOS OS DIAS






Mulher todos os dias
E até no mês de Março!
Eu, tu, nós,
Minha Filha
Minha Mãe
Minhas Avós,
Mulheres desembaraço!
Mulheres raiva
Mulheres ternura
Mulheres prazer
E bem querer!
Mulheres sofridas
Mulheres cansaço!
Mulheres coragem
Ou doloridas,
Mulheres credoras
Sem data,
Dum sorriso
E dum abraço!


Não há um dia fixo para te sentires mulher! 
(...)



Marta Brinca in Diário das Beiras

Imagens: Jennifer Healy








quinta-feira, 18 de fevereiro de 2016

TER ASAS






Ter asas de pássaro madrugador,
flutuar mais do que as nuvens
no íntimo dos azuis da imensidão,
é sonho.

Ter lágrimas de chuva maior
sentir o gotejar silencioso
no âmago trémulo de agitação,
é choro.

Choro murmurado, 
porque muito de mim é água,
mar longínquo, manhã de vento, 
saudade, desassossego e mágoa.


Maripa

Imagens Google







quarta-feira, 3 de fevereiro de 2016

CORRESPONDÊNCIA AO MAR





Quando penso no mar
A linha do horizonte é um fio de asas
E o corpo das águas é luar,

De puro esforço, as velas são memória
E o porto e as casas
Uma ruga de areia transitória.

Sinto a terra na força dos meus pulsos:
O mais é mar, que o remo indica,
E o bombeado do céu cheio de astros avulsos.

Eu, ali, uma coisa imaginada
Que o Eterno pica,
Vou na onda, de tempo carregada,

E desenrolo...
Sou movimento e terra delineada,
Impulso e sal, de pólo a pólo.

Quando penso no mar, o mar regressa
A certa forma que só teve em mim -
Que onde acaba, o coração começa.

Começa pelo aro das estrelas
A compasso retido em mente pura
E avivado nos vidros das janelas.

Começa pelo peito das baías
A rosar-se e crescer na madrugada
Que lhe passa ao de leve as orlas frias.

E, de assim começar, é abstracto e imenso:
Frio como a evidência ponderada.
Quente como uma lágrima num lenço.

Coração começado pelos peixes,
És o golfo de todo o esquecimento
Na minha lembrança que me deixes,

E a rosa dos ventos baralhada:
Meu coração, lágrima inchada,
Mais de metade pensamento.



Vitorino Nemésio, O Bicho Harmonioso, Coimbra, 1938

Imagens: GOOGLE