sexta-feira, 10 de setembro de 2021

A UMAS FLORES AMARELAS

 



 

A umas flores amarelas


Encontro-as por acaso numa ilharga

sombria do caminho. São amarelas.

Reluzem como um sol que arda na noite.

 

Estas flores tão densamente de ouro,

eriçadas de estames que parecem

a pelagem dum gato posto à prova,

 

a mim, que me comovo com igrejas singelas

de preferência a grandes catedrais,

 

mostram um esplendor totalmente inesperado

neste chão de pedra que ninguém diria

poder florir assim.

 

Ó flores cujo nome desconheço,

prolongai esse fulgor humilde em cada dia

de que ainda disponho para ver as flores,

 

antes de as flores virem ter comigo...


A. M. Pires Cabral



Yellow by Coldplay, arranged and performed by Brooklyn Duo.

Imagem : Pinterest

terça-feira, 31 de agosto de 2021

NÃO SEI DEFINIR A COR DA MADRUGADA

Painting by Amanda Miyuki


 

Não sei definir a cor da madrugada.

O gosto sim.

 

Sabe-me a creme [de]leite

polvilhado com canela,

a suaves fantasmas da infância

a entrar pela janela.

 

E quando  nasce o Sol,

 surpreende-me

ensonada e desprevenida,

a alinhavar palavras

concisas ou sem nexo

_ sinais da cruz _

do carnaval da vida.

 Maripa

[já publicado]


YUJA WANG plays RACHMANINOV


segunda-feira, 23 de agosto de 2021

PALAVRAS-BORBOLETA

Imagem Pinterest

 

Palavras-borboleta

 

A névoa cobre os tetos da cidade...

Palavras cansadas espreguiçam-se,

languidamente,

e espreitam pela janela entreaberta

a nudez das folhas em branco

no caderno ainda meio adormecido.

 

As palavras precisam ser regadas

pelo orvalho das manhãs

para serem renovadas e belas...

 

Sei que há palavras que dizem tudo,

ou quase tudo,

que cantam hinos ao sol e à lua,

aos rios e aos mares,

palavras macias como veludo

a fazer nascer borboletas nos dedos

de mãos que não desistem de tocar as estrelas.

 

[preciso tanto de palavras-borboleta para navegar]


Maripa


 

"PURE YANNi" - Butterfly Dance


quarta-feira, 18 de agosto de 2021

DENTRO DOS TEUS OLHOS NAVEGO MAR ADENTRO

Painting  by Justyna Kopania


 

Dentro dos teus olhos navego mar adentro...

Não importa

o tempo sem tempo da espera.

O tempo do derramar

flores para ondear nas águas.

Não importa.

 

Pétalas hão-de cair dos mastros

da caravela onde hei-de dormir

o sono-sonho despido de mágoas.

Importa sim

que mar adentro,

dentro dos teus olhos,

afogue os meus num sonho branco.

Sono-sonho, isento de pecado,

mar de devaneios inocentes

onde mergulhe

e floresça em espuma.

Sono-sonho,

praia bordada de amores-perfeitos

onde a maresia me perfuma.

 Maripa  16 .12. 2008



HAUSER - Playing Love

 

quinta-feira, 12 de agosto de 2021

CANÇÃO DA MINHA TRISTEZA

 





Canção da Minha Tristeza

 

Meu coração não está nas largas avenidas

nem repousa à tarde, para lá do rio.

Nada acontece. Nada. Nem, ao menos, tu

virás despentear os meus cabelos.

 

Nem, ao menos, tu, neste tempo de angústia

vens dizer o meu nome ou cobrir-me de beijos.

Ah, meu coração não está nas largas avenidas

nem repousa à tarde, para lá do rio.

 

A cidade enlouquece os meus olhos de pássaro.

Eu recuso as palavras. Sei o nome da chuva.

Quero amar-te, sim. Mas tu hoje não voltas.

Tu não virás, nunca mais, ó minha amiga.

 

Nada acontece. Nada. E eu procuro-te

por dentro da noite, com mãos de surpresa.

Meu coração não está nas largas avenidas

nem repousa à tarde, para lá do rio.

 

E tu, longe, longe. Onde estás meu amor,

que não vens despentear os meus cabelos?

Eu quero amar-te. Mas tu hoje não voltas.

Tu não virás, nunca mais, ó minha amiga.

 

Joaquim Pessoa, in 'Canções de Ex-Cravo e Malviver



Guitarra Triste

Guitarras : Domingos CaGmarinha e Santos Moreira

segunda-feira, 9 de agosto de 2021

NÃO HÁ, NÃO

 

Pintado porAnand Swooarup

 

 Não há, não,

duas folhas iguais em toda a criação.

Ou nervura a menos, ou célula a mais,

não há, de certeza, duas folhas iguais.

 

Limbo todas têm,

que é próprio das folhas;

pecíolo algumas;

baínha nem todas.

Umas são fendidas,

crenadas, lobadas,

inteiras, partidas,

singelas, dobradas.

 

Outras acerosas,

redondas, agudas,

macias, viscosas,

fibrosas, carnudas.

 

Nas formas presentes,

nos actos distantes,

mesmo semelhantes

são sempre diferentes.

 

Umas vão e caem no charco cinzento,

e lançam apelos nas ondas que fazem;

outras vão e jazem

sem mais movimento.

 

Mas outras não jazem,

nem caem, nem gritam,

apenas volitam

nas dobras do vento.

 

É dessas que eu sou.

 

António Gedeão, Poesias Completas


Autumn Leaves - Yenne Lee


terça-feira, 3 de agosto de 2021

NO SILÊNCIO DO PEITO

 




No silêncio do peito

 

No silêncio do peito

guardo um cofre de palavras

a quem dou asas para voar.

 

Nas mãos enrugadas

enovelo o fio

que entrelaça o tempo.

 

Nos olhos cansados

arrecado poeiras fugídias

de estrelas cadentes.

 

E porque não é  tempo de noites longas

encosto um búzio ao meu ouvido,

escuto o mar

               e espero o dia amanhecer.


Maripa



Thalassa - Stamatis Spanoudakis

IMAGEM: PINTEREST


sexta-feira, 30 de julho de 2021

Singela homenagem a PEDRO TAMEN


Imagem: Pinterest

Palavras minhas


Palavras que disseste e já não dizes,

palavras como um sol que me queimava,

olhos loucos de um vento que soprava

em olhos que eram meus, e mais felizes.

 

Palavras que disseste e que diziam

segredos que eram lentas madrugadas,

promessas imperfeitas, murmuradas

enquanto os nossos beijos permitiam.

 

Palavras que dizias, sem sentido,

sem as quereres, mas só porque eram elas

que traziam a calma das estrelas

à noite que assomava ao meu ouvido…

 

Palavras que não dizes, nem são tuas,

que morreram, que em ti já não existem

– que são minhas, só minhas, pois persistem

na memória que arrasto pelas ruas.

 

Pedro Tamen



Mozart Lacrimosa, from the Requiem by Yevgene Sudbin


segunda-feira, 26 de julho de 2021

INVENTEI A DANÇA PARA ME DISFARÇAR



Pintura de Ant Fox


Inventei a dança para me disfarçar

 

Inventei a dança para me disfarçar.

Ébria de solidão eu quis viver.

E cobri de gestos a nudez da minha alma

Porque eu era semelhante às paisagens esperando

E ninguém me podia entender.

 

 

Sophia de Mello Breyner Andresen 



Ver em ecrã inteiro

Svetlana Zakharova in Dying Swan



terça-feira, 13 de julho de 2021

... A MÚSICA ...


autoria de: Bianca P.



"Sem música a vida não faria sentido"

 Friedrich Nietzsche

A música é o tipo de arte mais perfeita: nunca revela o seu último segredo.

 Oscar Wilde

"Deus segue um plano ao escrever a música de nossa vida.A nossa parte deve ser aprender a melodia e não desanimar nas "pausas" e nos "contratempos".

 Lílian Tassara

 



Agafya Korzun,  

encantadora e talentosa menina, com rosto de porcelana e roupa de época,, a parecer  roubada a uma “máquina do tempo” ou tirada a um filme ..., interpretando um Nocturno de Chopin.


domingo, 11 de julho de 2021

PROVÉRBIO ABORÍGENE

 



Provérbio aborígene

sexta-feira, 2 de julho de 2021

PAUSA FORÇADA


Segunda feira dei uma  queda  "disparatada" em casa e fracturei um osso do pulso. Fractura complexa [segundo o ortopedista] que me vai pôr em férias de blog 


UM ABRAÇO ENORME

A TODOS QUE ME TÊM VISITADO




sábado, 26 de junho de 2021

TU TENS UM MEDO


Aquarela de Agnes-Cecile


Tu tens um medo

 

Tu tens um medo:

Acabar.

Não vês que acabas todo o dia.

Que morres no amor.

Na tristeza.

Na dúvida.

No desejo.

Que te renovas todo o dia.

No amor.

Na tristeza.

Na dúvida.

No desejo.

Que és sempre outro.

Que és sempre o mesmo.

Que morrerás por idades imensas.

Até não teres medo de morrer.

 

E então serás eterno. 

Cecília Meireles



Lindsey stirling -Boulevard of broken dreamas



 

sexta-feira, 25 de junho de 2021

Flores para a FÊ

 




Flores para uma Amiga muito querida, A FÊ, que reencontrei por um feliz acaso. Fiquei tão contente e emocionada... 
 ... e como quando as palavras faltam, as flores falam,
 escolhi " Tango en Skai"  para as acompanhar. Espero que goste. 
             
 Abraço, minha linda.




Hauser & Petrit Çeku - Tango en Skai

terça-feira, 22 de junho de 2021

Pedro Abrunhosa & Os Bandemónio - Momento (Uma Espécie De Céu)

"Uma espécie de céu" 

 1ª faixa do disco Momento 

 

Palavras escritas para  a construção do disco MOMENTO de Pedro Abrunhosa

 

Momento é por definição o instante irrepetível. A música é pois, ainda que de forma estranhamente paradoxal, a arte de tornar perene o momento, estruturada que é no conceito de tempo e da repetição encantatória deste. Assim construí eu este disco. Uma maneira de tornar eternos os meus instantes, de os lançar como nuvens invisíveis sobre o céu carregado das melodias que me ensombram. Aqui habitam todos os fantasmas, as obsessões, as loucuras possíveis e todas as outras que não cheguei ainda a pronunciar. Das palavras faço canções que me fintam e se perdem por entre a harmonia seca de um piano qualquer. São as esquinas da cidade que me seduzem, mulheres vestidas de maquilhagem carregada, vultos escorregadios que tecem a noite como pássaros silenciosos, madrugadas encantadas entre as pegadas de um areal molhado pela chuva imprecisa. Os meus momentos são banais e por isso os canto. Esta vontade que tenho de tornar o real numa canção que repito até que outra canção me surja do sonho. Elas são o mundo a pulsar a cada piscar de olhos, o lento crescer de um lírio num deserto de cetim e cimento, as letras esbatidas de um jornal que ninguém lerá. Este é o meu Momento. Assim se cumprirão nas vossas mãos os meus instantes irrepetíveis.


                                                                                                   Pedro Abrunhosa




domingo, 20 de junho de 2021

O ESPELHO

 



Imagem: Pinterest

O Espelho

 

Esse que em mim envelhece

assomou ao espelho

a tentar mostrar que sou eu.

 

Os outros de mim,

fingindo desconhecer a imagem,

deixaram-me a sós, perplexo,

com meu súbito reflexo.

 

A idade é isto: o peso da luz

com que nos vemos. 

 

Mia Couto


Canon in D (Pachelbel´s) Arpabaleno // Harps


quinta-feira, 17 de junho de 2021

NO HORIZONTE

 

Imagem: Pinterest

No horizonte


No horizonte que mora para além

do infinito os meus olhos

há estrelas a brilhar.

Estrelas que preciso acesas

- dia e noite -

para saber onde poisar.

 

Gaivota sou.

Gaivota com medo

do apagar das estrelas

do escuro do futuro.

Medo

que o mar me fuja

e a maré baixa

não volte a subir.

Medo

de ser gaivota sem horizontes

nem praia onde dormir.

 

Não. Gaivota sou e quero ser.

Enquanto asas tiver, hei -de voar

e ser gaivota num corpo de mulher.


Maripa

[já editado]


sexta-feira, 11 de junho de 2021

O PÁSSARO CONHECE O VALOR DA NUVEM

 

Imagem: Abraham Hunter


O pássaro conhece o valor da nuvem

Sabe do cheiro da água

na boca do entardecer.

E tantas vezes beija a terra

para colher o alimento. 

 

O pássaro percorre os céus

e o ser sem pensar no sentir.

Existe. Assim de simples.

Fazendo parte de todas as coisas.

 

O pássaro sabe do canto e encanta. 

 

Desconhece que a voz do homem

produz sons de clausura.

Nada sabe da palavra que se quis... liberdade.

Mas sabe Ser. Livre.

 

Amo os pássaros mais que a palavra.

Ser, perto do voo, sem ruído de correntes.

 

Sónia Micaelo



Pintura: Basil Ede


terça-feira, 1 de junho de 2021

CEGA, SECRETA E DOCE COMO ESTRELAS

 




 

Entre o terror e a noite caminhei

Não em redor das coisas mas subindo

Através do calor das suas veias

Não em redor das coisas mas morrendo

Transfigurada em tudo quanto amei.

 

Entre o luar e a sombra caminhei:

Era ali a minha alma, cada flor

- cega, secreta e doce como estrelas -

Quando a tocava nela me tornei.

 

E as árvores abriram os seus ramos

Os seus ramos enormes e convexos

E no estranho brilhar dos seus reflexos

Oscilavam sinais, quebrados ecos

Que no silêncio fantástico beijei.

 

 

   Sophia de Mello Breyner Andresen



                                                                                                Imagens: Pinterest


domingo, 23 de maio de 2021

COMO SE À NOITE O MAR...

 




como se à noite o mar…


 numa estranha rota iluminada

deixasse livre o sonho esvoaçar:

os rostos que se foram, em parada,

em silêncio nos vêm visitar.

 

 sob chuva distante e torturada

que na nossa tristeza deixa os sais,

rostos amados na sua desfilada,

vão-nos dizendo devagar: jamais!

 

 como se à noite o mar…

 

 me forçasse a perguntar, oh mágoa,

nesta fria margem de ilusão

porque correm os dias como água,

se não passam nem nunca passarão?

 

 silente carícia de uma ignota mão

que marcas nas faces o signo da lua

abre-me a alma, fecha-me a razão

dá-me aquela Presença que é só Tua.

 

                                                                        Adalberto Alves



                                         
imagens: Pinterest